Ética Animal

Da. Corruíra aterrissou na varanda, toda molhada e friorenta. Num demorado espasmo espanou suas peninhas, borrifando o piso da varanda com uma infinidade de pequeninas gotas d’água. Depois de secar-se, Da. Corruíra deu um salto e subiu direto e reto para o ninho onde estavam seus filhotes, os Corruirinhos.

Apenas três haviam vingado de uma postura de seis ovinhos. Um deles fora quebrado pela asada desastrada de uma andorinha estabanada . Outro, sabe-se lá por quê, simplesmente não chocara. Um terceiro fora devorado por uma lagartixa faminta, do tamanho de um jacaré. Dos seis ovinhos da postura haviam sobrado apenas aqueles três: o Corruíro Jr. Um, o Corruíro Jr. Dois e o Corruíro Jr. Três. Deus quis assim...

Da. Corruíra entrou corruirando alto no ninho protegido pelas as telhas da cumeeira. Seus filhotes, como sempre, estavam famintos, ansiosos à espera da refeição. Ela já se acostumara a isso. Qual não foi a frustração dos pequenos ao perceberem que sua mãe não lhes trouxera nada no bico.

- Ei mãe, cadê o rango? - intimou Corruíro Jr. Um, de bico aberto.

- É, é mesmo, eu também quero! - corruirou Corruíro Jr. Dois, a plenos pulmões.

- Eu também, eu também! - gritou Corruíro Jr. Três mostrando a goela escancarada.

Da. Corruíra, envergonhada por ter faltado vergonhosamente naquela tarefa básica de qualquer mãe que se preze, tentou, em vão, justificar-se:

- Sabem o que é, meus filhos, eu tentei, procurei, procurei mas não achei...

Nervosíssimo de esfomeado, o Corruíro Jr. Um gritou:

- Então vai lá, sua véia incompetente. Trata logo de trazer um rango pra nós.

- Mas meu filho, ‘tá chovendo muito lá fora! ‘Tá um frio... - corruirou ela arrepiando as peninhas..

- Não tem "meu filho" e nem porra de "meu filho". Vai lá e descola um rango pra nós! - disse o Corruíro Jr. Três, desafiador.

- Mas meus filhos?! - espantou-se Da. Corruíra, olhando para os outros dois.

- O mano já falou, sua bruxa: não tem "meus filho" nem porra de "meus filho". Vai lá, coroa, e descola já o nosso rango! - exigiu imperativamente o Corruíro Jr. Dois.

- É sua véia coroca, vai lá e vê se descola umas minhocona daquelas bem grande. Pode ser também umas tanajura das gorda, que ‘teja bem ovada. - disse o Corruíro Jr. Três, com água no bico cheio d’água.

- É, sua véia forgada. Vai logo e traz a comida pra nós. Tu sabe que nós não pode avoar, nós ‘inda tá sem pena! Vai lá sua vagabunda. - ofendeu o Corruíro Jr. Um.

- Ô, ‘péra lá! - exclamou carinhosamente, Da. Corruíra - Vagabunda é a mãe! Tá bom, ‘ocês se acalmem - corruirou ela – ‘peraí que eu vou lá fora buscar.

- ‘Peraí... ‘Peraí o carái! – enervou-se o Corruíro Jr. Um - Vai já e volta logo!

- É, mãe, vai indo que eu não vou... - falou o Corruíro Jr. Três agitando suas asinhas peladas.

A pobre da Da. Corruíra, a contragosto saiu voando do ninho, pousou no alpendre e encarou, desgostosa, o tempo lá fora. Chovia muito e fazia muito frio. Mas o quê poderia fazer senão encarar o tempo para encontrar algum inseto? Afinal sentia-se na obrigação de alimentar seus queridos filhotes.

- Vamos à luta - pensou Da. Corruíra, atirando-se corajosamente no ar que mais parecia um mar.

Passados alguns instantes ela voltou, toda orgulhosa. Trazia no bico uma suculenta larva de libélula, ainda viva. Pousou na varanda, espanou novamente suas penhinhas e, sem querer, ouviu o alarido que vinha do ninho:

- Que dê essa puta véia que não volta?

- É, cadê o nosso rango?

- Tô c’uma fome da porra. Cadê essa merda dessa mãe nossa que não vem?

Da. Corruíra, com a larva no bico, estava abismada. Ela não imaginava como seus rebentos, tão novos, tinham aprendido aquele linguajar. Lá no ninho, os filhotes continuavam corruirando alto.

- Puta merda, se eu podia, eu matava essa droga de mãe nossa que não faz porra nenhuma pra nós!

- Eu também, eu também! - disse o Corruíro Jr. Dois - Eu matava ela empalada. Acabava c’o cu dela!

- Acabar só c’o cu é pouco. Eu acabava logo era com a velha toda! - exaltou-se o Corruíro Jr. Um.

Da. Corruíra estava abismada com os comentários dos filhotes. Como não ousasse entrar no ninho naquele clima, os pequenos continuaram com a corruiragem:

- É, parece que essa merda dessa mãe não vem mesmo! – disse desenganado o Corruíro Jr. Três.

- E agora, o que é que nós vai fazer?

- Sei lá... Sei é que eu ‘tou c’uma fome do carái.

- Eu também! Cadê a porra dessa mãe c’o nosso rango?

- Pode ser que ela resolveu abandonar nós...

- Mãe, vem cá pelo amor de Deus! - gritou o Corruíro Jr. Dois, olhando pelo buraco da cumeeira - Traz o rango pra nós - implorava ele.

- É mãezinha, traz o rango, vai, traz, faz favor. Nós tá c’uma fome danada, se bobear nós come inté a senhora! Er, quer dizer, não é que nós come a senhora, é que nós ‘tá com muita, muita fome!

- E essa pôrra dessa mãe que não chega nunca! - reclamou o Corruíro Jr. Um.

- Vamos mandar ela à merda.

- E aí nós come o quê?

- Nós come marimbondo, ara.

- Marimbondo ?! ‘Cê ‘tá louco?

- Não, não ‘tou louco não. Marimbondo inté que é bão!

- Não me diga!?

- É mesmo, é bão pra tudo. É bão prà fome, é bão prà tosse, diz que é bão inté pra sará uma tal de osteoporose...

- Osteopoquê?

- Porose, seu burro!

- Ei, ‘peraí, não vem não, mano, vai se foder! Burro não, eu sou é passarinho!

- Passarinho? Nem passarinho tu ‘inda é. Tu nem sabe avoar... Tu nem tem pena... Quer dizer, neném, pena ‘ocê não tem... Tem pena nem dó.

Corruíro Jr. Um caiu de bico. Certo é que faltavam-lhe as penas, que não estava maduro, que não era ainda o que se poderia chamar de um verdadeiro corruíro. Ainda dependia da mãe... Mas ele não admitia isso:

- Essa puta véia deve ‘tar é dando por aí. - disse ele, ofensivo, aos irmãozinhos igualmente depenados.

- Êta merda. E nós? ‘Tou c’uma fome da porra! - falou o Corruíro Jr. Três.

- E se ela abandonar nós? - corruirou o Corruíro Jr. Um.

- Se ela fizer isso, nós ‘tamo é bem fodido! Nós já era... nós ‘tá é frito.

- Nunca mais de nós. - disse o Corruíro Jr. Dois.

- Puta, mano, minha barriga tá roncando.

- Vê se fecha esse bico aí e pára de encher o saco.

- Mas é que é foda, meu. Não dá pra controlar.

- Eu quero é que você se foda!

- Foda-se tu, seu cuzão.

- Vamo, vamo parar com isso! - disse o Corruíro Jr. Três - Vamo ponhar os pingo nos i: se essa nossa mãe do carái não chegar, nós ‘tamos é bem fodidos. Alguém aqui sabe avoar? - falou ele, intimando os outros dois.

Os três corruirinhos trocaram olhares. Nenhum deles estava ainda em condições de voar. O tubo digestivo do Corruíro Jr. Três roncou alto:

- Rrrrr...

- ‘Tou c’uma fome do cacete! - choramingou ele.

- Será que essa merda dessa mãe nossa não vai voltar mais? - perguntou, angustiado o Corruíro Jr. Um.

- Ela volta, ela volta. - falou o Corruíro Jr. Dois, esbanjando esperança.

- Então fecha esse bico aí e vamo esperar a mãe voltar.

- É, vamo esperar que ela volta!

- Vamo mesmo!

- Volta vai mãezinha... - implorou o Corruíro Jr. Um.

Apesar dos absurdos que ouvia, Da. Corruíra decidiu-se, finalmente, a entrar em seu ninho. Ela estava cansada, molhada, com frio. Mas, apesar de tudo, sentia-se orgulhosa por ter encontrado alimento para seus filhotes.

- Aí, véia, ‘inda bem que tu chegou! ‘Tou c’uma puta d’uma fome. - disse o Corruíro Jr. Um.

- É, é isso aí - gritou o Corruíro Jr. Três - dá logo esse nosso rango e vai avoando pra descolar mais.

- Vai logo, sua fiá da puta, vai logo bruxa véia. E passa logo essa larva pra cá - intimou o Corruíro Jr. Dois.

O Corruíro Jr. Um pulou para perto da mãe e abriu o bico mostrando o papo, esperando que Da. Corruíra lhe enfiasse o petisco goela abaixo. Seus irmãozinhos imitaram-no com a mesma fé.

O problema é que os bicos eram três e a larva, apenas uma. Da. Corruíra hesitou.

- Vai logo, sua véia estúpida! Manda essa merda aí pra nós. - disse o Corruíro Jr. Dois.

- É, senão nós vai engolir essa bosta com a senhora e tudo. - esbravejou o Corruíro Jr. Um.

O Corruíro Jr. Três não teve dúvidas. Como era o mais forte dos três e já estava com o pescoço bem formado, deu um bote, roubou a larva do bico da mãe e engoliu-a, estalando saborosamente o bico.

- Vai lá sua véia de merda. Vai lá e traz o rango dos irmão aqui que ‘inda nem não almoçaro! - disse o Corruíro Jr. Três.

- É, sua incompetente. Vai buscar nosso rango agora! - exigiu o corruíro Jr. Dois.

- Vai, vai logo sua fía da puta! - falou o Corruíro Jr. Um - A senhora sempre dá tudo pra ele e não dá nada pra nós, né, sua vagabunda! - e deu uma bicada agressiva que por pouco não arranca o olho de sua mãe.

- Vou cair fora daqui. - pensou ela, zelosa porém amedrontada.

Foi. Depois de algum tempo ela voltou trazendo outra larva para sua prole. Os três Corruirinhos estavam lá, como sempre, mortos de fome. Nem bem chegou e já ouviu:

- Onde ‘cê ‘tava, sua puta véia?

- Quedê o rango sua bruxa?

- Agora é meu, agora é meu, sua piranha!

Dizendo isso, o Corruíro Jr. Dois atirou-se à mãe na tentativa de abicanhar a larva. Com o choque de bicos, o inseto pulou para dentro do ninho. Imediatamente o Corruíro Jr. Três, que era o mais gordinho deles, lançou-se para alcançar o bocado.

- Essa larva é minha, seu fiá da puta! - disse o Corruíro Jr. Dois movendo freneticamente o bico. Houve um choque, e o bico do Corruíro Jr. Dois espetou-se no olho do Corruíro Jr. Três, traspassando-lhe o cérebro. Matou o irmão. O Corruíro Jr. Dois levou um tempão para livrar o bico ensangüentado do crânio do cadáver.

- Ih, cacete... ‘cê matou o mano! - disse o Corruíro Jr. Um - Ele ‘tá morto!

- Morreu, morreu, antes ele do que eu. - disse o Corruíro Jr. Dois, com sua vozinha estridente.

- E agora? - perguntou o Corruíro Jr. Um.

- Agora eu como a larva com ele e tudo! - exclamou, bicudo, o Corruíro Jr. Dois.

- Não, eu é que vou comer ele.

- ‘Cê não, ‘cê já ‘tá bem gordo. E ‘inda por cima foi eu que espetou ele.

- Então eu fico co’a larva!

- Pode ficar...

O Corruíro Jr. Dois abriu o bico e engoliu o Corruíro Jr. Três de uma só bicada. Vinha com larva e tudo, mas o Corruíro Jr. Um foi ágil o suficiente para abicanhá-la antes que o irmão a engolisse.

Para Da. Corruíra, o incidente até que foi bom. Menos um para xingá-la e exigir o rango. Apesar disso, ela chorou.

 

autor: Don Francis


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