ESPELHO, ESPELHO MEU...
Já pela manhã, bem cedo, quando vinha no ônibus atulhado, espremido e apertado por uma multidão que não queria mais do que chegar ao trabalho, vinha pensando... Qual seria um objetivo para este dia; como gostaria que transcorresse o dia de honje e para quê viveria aqui por mais este dia?
Com profundo sentimento de oração, entre o roçar de corpos no coletivo repleto, pensei em escrever. Se não tivesse outras coisas a fazer no serviço fotográfico para o Instituto. Sim, escrever algo... com alegria, que pelo menos pudesse ser de utilidade para meus eventuais leitores e as possíveis leitoras. O tema: ESPELHO. Logo vieram-me à mente as palavras daquela que envenenou a Bela Adormecida: "- Espelho. espelho meu, há na Terra alguém mais bela do que eu?
É fácil estabelecer um tema, mais difícil é desenvolvê-lo. Como e o quê escrever sobre ESPELHO?
Chego em minha sala e sento-me à escrivaninha. Há um livro aberto sobre ela, o livro "Primeiras Estórias", de nosso ilustríssimo Guimarães Rosa. Aleatoriamente viro à página 69 e , coincidência? Vejo um grande número 11 tendo por baixo o título""O Espelho". Leio o breve conto; será que há mais a dizer?
Há a dizer que a minha primeira experiência com espelhos, a primeira de atenção a eles, foi nos tempos em que eu pertencia à Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC). Foi num exercício proposto pela irmandade. Através desse exercício aprimorei a capacidade de concentração e, vendo refletida minha forma externa, obtive avanços no caminho do desvendamento. Em busca da resposta da velha pergunta: QUEM SOU EU?
Quem sou eu? Em verdade, assim como o mestre Guimarães Rosa, naqueles tempos também notei a semelhança de minha forma externa com um bicho específico, particularmente com uma águia. Após diversas meditações, concluí que aquilo, aquela forma externa que eu via refletida no espelho não era propriamente o que sinto como sendo "EU". Pelo menos não de todo... Achei que "EU" ia além daquilo.
Percebi também traços de família, a herança genética dos pais, dos avós e demais ancestrais. São as pré-definições codificadas na dupla-espiral de DNA, a molécula fundamental da vida. Notei também as alterações na minha aparência, devidas geralmente às emoções momentâneas, tais como extrema alegria, ira, tristeza, medo e outras mais sutis. Vi que, mesmo assim assim, nada disso era ainda o verdadeiro e completo "EU", porém não conseguia atinar com o certo entendimento...
Em busca da resposta, mergulhei no estudo das Religiões, da Filosofia e da Psicologia. Preciso confessar que muitas coisas belas aprendi, porém ainda não estavam sanadas as minhas dúvidas. Apesar dos estudos fervorosos em que me apliquei, apesar dos esforços de raciocínio e da intuição que utilizei, ainda assim não conseguia atinar comigo mesmo.
Por essas voltas que a vida dá, será que por acaso?, caí no Instituto de Física da USP. Após formação exclusivamente humanística, desde o Ginásio, Colegial, a Escola Superior de Cinema, a Faculdade de Ciências Sociais, e depois de quinze anos sem estudar (na rede oficial), decidi buscar os conhecimentos da Física. Vários motivos levaram-me a tanto, só que assim como na "Sequência", outro conto das "Primeiras Estórias", foram todos motivos aparentes, que apenas serviram de impulsos para a concretização de uma realidade maior. É aquilo a que chamamos "Destino".
Fui buscar os conhecimentos da Física e acabei encontrando os da Metafísica. Não nas salas de aula do IFUSP, mas na fila do restaurante do CRUSP. Diariamente almoçava e jantava no restaurante. Todos os dias ficava na fila para o "bandejão". Na fila conheci um senhor, fiscal do restaurante. No começo apenas trocávamos cumprimentos. Aos poucos começamos a conversar. Falávamos na situação do mundo, sobre o Brasil, de São Paulo, da Universidade e, aos poucos, começamos a abordar temas filosóficos, religiosos e sobre as condições da humanidade em geral.
Um senhor forte e encorpado, de óculos, com os cabelos totalmente brancos. Não aparentava ter o conhecimento que realmente tinha. Vendo meu interesse e humildade perante a vida, ele propôs emprestar-me um livro, pois tinha certeza que me seria útil. Trouxe-me o tal livro. Nos livros de sabedoria das diversas Religiões que tenho estudado, tenho encontrado frequentemente uma proposta, a que segue: que o Mestre aparece quando o Discípulo está pronto.
Muito tempo passei à procura do meu Mestre. E, eis que senão quando, foi através daquele senhor, um homem simples, um fiscal de uma fila de refeitório do CRUSP, e por intermédio daquele livro emprestado, que finalmente tive a oportunidade de encontrar o Mestre e de tornar-me um verdadeiro discípulo. De forma simples e clara, sem os véus perenes do esoterismo, sem aquelas imagens, rebuscamentos e deformações dos propagadores das Religiões em geral, sem aquelas mistificações propagadas pelos falsos-profetas.
De um modo prático, vivendo e aprendendo com o Mestre.
Primeiro sobre o "EU"... Muita gente pensa em si, no próprio "EU", como sendo apenas o que se encontra contido no envoltório carnal, cuja parte mais externa é a pele. Guimarães Rosa apresenta o "EU" como sendo algo mais profundo do que isso. Ele diz: "O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo nada encherguei. Só então, só depois: o tênue começo de quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos , tentando-se em débil cintilação, radiância. Seu mínimo ondear comovia-me, ou já estaria contido na minha emoção? Que luzinha aquela, que de mim se emitia, para deter-se acolá, refletida, surpresa? Se quiser, infira o senhor mesmo."
Luzinha? Pode ser... Só que é uma "luzinha" irremediavelmente ligada a uma infinidade de outras "luzinhas" e, no fim da contas, como a fonte de "luz" é uma só. Será que Vida agora mudou de nome? Não dá pra dizer, ao certo, certo meesmo, qual a "luzinha" que sou "EU" e que "luzinha" é o próximo ou o distante. A não ser como sendo uma pura ilusão. Aprendi que o "EU" não é simplesmente algo mais profundo do que o envoltório carnal. "EU" é, isto sim, algo muito mais amplo, tão amplo mas tão amplo que atinge toda a manifestação.
Senão vejamos: quando eu me corto, eu sinto dor. Mas quando meu filho, por exemplo, se corta, eu também sinto a dor. Tem mais: quando qualquer pessoa em meu Universo se corta, uma parte de sua dor se reflete em mim e assim, sinto dor também. "- Ah, mas isso é óbvio!" você poderia argumentar. Óbvio porém esquecido.
Mestre disse: "Ao redor de um homem (ou mulher), existem muitas pessoas, como pais, irmãos, marido, mulher, amigos e outros. Pode-se dizer que nosso EU é feito é feito por todas essas pessoas. Para retribuirmos esse favor, precisamos ajudá-las a ser felizes. Quando por nossa ajuda elas se tornam felizes, nós também o ficamos."
Assim Sendo, o "EU" se estende a todas as pessoas do mundo! Pra que "EU" me sinta feliz, é preciso trabalhar para que todas as partículas do "EU" também sintam Felicidade. Outra afirmação que, em estudos, encontrei nas mais importantes Religiões e Filosofias: que para ser feliz, para alcançar a iluminação, ou o Nirvana, ou seja lá o que for que signifique um estágio mais avançado no caminho do ser humano, é preciso suplantar o "ego". Mas o quê exatamente seria o "ego"?
Durante anos procurei diferenciar dentro de mim o "EU" do "EGO". Apesar de esforços, não conseguia diferenciar essas coisas. Quem save devido a problemas de conceituação, derivados da psicanálise. Até que recebi orientação de que "EU" é a manifestação vital da Grande Natureza, e "EGO" é emaranhado de vícios nas formas de sentir, de pensar e de agir, um acúmulo de maus hábitos espirituais, que impedem a plena manifestação do "eu", provocam doenças, desventuras e sofrimentos de toda a sote.
Entre os principais hábitos espirituais que impedem a plena manifestação do "EU", o Mestre cita: "a ira, a pressa, o receio e a tristeza destroem tudo." Entre outras coisa, ele diz também que "tudo é espelho."
Quando manifestamos esses sentimentos, quer intimamente, quer através de atos e/ou palavras, o Mundo ao nosso redor, o Universo todo que nos chega aos sentidos, reflete-o. Infalivelmente! É a reação contrária e proporcional, que retorna em forma de doenças e desventuras em geral. Por exemplo: os derrames cerebrais. Outro exemplo: as batidas de automóvel.
Finalizando a questão do espelho, sei dizer que graças à Grande Natureza e graças ao mestre, hoje encontro-me desenvolvendo a sensibilidade para perceber quando manifesto "EU" ou "EGO", tendo como grande ajuda no caminho, que não tem sido curto, o magnífico e maravilhoso Espelho do Mundo, em especial o espelho dos meus filhos.
É como diz o ditado: "Filho de peixe peixinho é!"
Será puro Reflexo?
autor: Francis F.