CADÊ O MEU PAI

Num Domingo frio e chuvoso, Roberto acordara cinzento. Sentia-se completamente dolorido, com a boca seca e amarga. Estava literalmente amarrotado. Queria mandar tudo à merda.

- Cadê o meu pai? – foi seu primeiro pensamento.

Seu corpo magro teimava em não querer despertar para o dia avançado. Seus cabelos compridos, despenteados, sua barba há dias por fazer e sua cara amassada davam-lhe uma aparência antiga, desgastada. As olheira profundas sob os olhos avermelhados, tornavam-no um velho.

- Porra... – pensou ele alto – Cadê o meu pai?

Roberto foi ao banheiro e mijou branco, espumoso. Mijo do porre do dia anterior. Meio bambo, urinou mais fora do que dentro da privada. Olhou-se no espelho e não gostou do que viu. Amarrou os cabelos num rabo, passou uma água no rosto e escovou os dentes amarelados.

- Preciso falar com o velho. – refletiu, obstinado.

O gosto adocicado do creme dental provocou-lhe uma náusea incontrolável. Roberto vomitou azedo. De cuecas e chinelos, saiu do quarto à procura da empregada. Não a encontrou no andar superior.

- Caralho! – xingou ele nublado– Onde será que se meteu essa vaca dessa doméstica?

Enfiou sua surrada calça de brim, há muito não lavada, uma camiseta amarrotada com estampa de caveira e o tênis, velho de guerra. Desceu tropegamente as escadas, zonzo de ressaca, com a cabeça estourando. Seu corpo estava moído.

- Cadê essa bosta dessa empregada? – resmungou, amargoso.

Na sala, Roberto pensou amuado:

- Cadê essa puta dessa empregada?

Ele gritou com voz rouca:

- Ei, tem alguém em casa?

Quando estava prestes a gritar novamente, Roberto ouviu uma voz distante, vinda de fora da casa:

- ‘Tou aqui no quintal, seu Betinho. ‘Tou estendendo a roupa no varal.

Com o cérebro latejando, Roberto tropeçou numa cadeira. Disse um palavrão. Encheu um copo d’água. Deu um gole prolongado e olhou pelo vitrô. O choque da intensa claridade fez com que Roberto contraísse instintivamente os olhos azuis.

Franziu o rosto magro numa careta, sentindo a dor das pupilas feridas pelo forte brilho da luz solar refletida nos lençóis brancos pendurados ao sol. Cobriu os olhos com a mão, tentando enxergar alguma coisa. Com dificuldade, Roberto finalmente conseguiu localizar as pernas negras da empregada por trás da ofuscância das roupas estendidas no varal.

- Ô tia - perguntou ele pastosamente - Cadê o meu pai?

Protegendo os olhos da luz, Roberto atreveu-se a olhar outra vez pela janela. Viu um ponto preto surgindo no meio daquele mar de claridade.

- Seu pai ‘tá lá no escritório, seu Betinho. – disse a doméstica, metendo a carapinha grisalha por entre dois lençóis.

Roberto moveu-se em direção ao escritório do pai. Sua mesada já acabara há tempos. Precisava urgentemente falar com o velho. Ele abriu a porta do escritório e apreciou o interior do aposento. Viu as prateleiras bem organizadas, repletas de livros brilhantes, perfeitamente encadernados.

O pai, que estava com as pernas comodamente esticadas sobre a escrivaninha, não percebeu sua presença de imediato. Sequer levantou os olhos de sobre um amontoado de títulos que tinha no colo: um mundo de ações da Bolsa de Valores de São Paulo.

Roberto entrou no escritório silenciosamente enquanto o pai digitava freneticamente certos números no teclado do telefone celular.

- Alô, de onde falam? – disse o velho ao telefone.

Roberto percebeu sofridamente que ele falava sobre transações da Bolsa, ações e cotações. Com o zumbido da voz grossa do pai revirando-lhe o estômago, Roberto também pensava em transações, somente que diferentes, transações de outro tipo. Ele estava mais preocupado com a transação que combinara fazer junto com um "chegado", na noitada anterior.

Agora não tinha jeito: ele se comprometera. Precisava descolar a grana da "parada" de qualquer jeito. Seus olhos fundos e avermelhados percorriam as prateleiras saltando de livro em livro. Depois, voltavam à grotesca imagem do pai, de corpo e alma recoberto de ações.

Roberto teve as pupilas feridas pela intensa claridade que penetrava no escritório àquela hora do dia. Desviou o olhar das ofuscantes cortinas de voal translúcido. Sentia-se enjoado com a voz nauseabunda do pai, que matraqueava de forma inclemente uma saraivada de cifras, de valores e de incompreensíveis percentagens.

Num movimento brusco o pai virou a calva para a parede e deu de cara com Roberto no aposento. Despedindo-se de seu interlocutor, ele afastou o celular da orelha avermelhada. Cuidadosamente, pousou o aparelho numa uma agenda sobre a mesa de vidro.

- Betinho, você está horrível! – opinou ele ao constatar o lamentável estado do rapaz.

Voltou ao telefone, digitou outra série de números e voltou a metralhar novamente outra rajada de números e considerações financeiras. Finalmente, o pai tornou a desligar e voltou-se para Roberto. Este, sem introduções, foi direto ao assunto:

- Tô precisando de grana, meu. – disse o jovem com a boca seca.

- Mas outra vez, Marcos Roberto!? Meu Deus, como você gasta, rapaz! Eu não posso acreditar que você já torrou toda a sua mesada! Por acaso você pensa que dinheiro cai do céu?

- Essa mixaria aí de mesada não ‘tá dando mais é pra nada! – reclamou Roberto, olhando para o carpete.

- Ah, é? "Mixaria de mesada", é? Pois saiba que tem muita gente que trabalha, entendeu? Tem muita gente que tem que dar um duro danado pra ganhar muito menos do que "essa mixaria aí de mesada". – disse ironicamente o pai, nervoso.

Roberto olhou para a porta e permaneceu calado. Após alguns longos momentos, quando o silêncio já se tornava insuportável, o pai pegou a carteira que estava na gaveta da escrivaninha, abriu-a e perguntou:

– De quanto você precisa, rapaz?

- Mil Reais.

- Santo Deus! Mil Reais? Pra quê você quer mil Reais? Nem sei se tenho essa quantia aqui... – disse o pai dedilhando as notas na carteira.

- Pode ser em cheque mesmo. – sugeriu Roberto.

- Meu Deus, Marcos Roberto, assim você me leva à ruína. – reclamou o pai sacando um talonário da gaveta.

Enquanto preenchia o cheque, ele comentou:

- Eu vou fazer o cheque, rapaz, mas saiba que por este mês acabou, você entendeu? Não tem mais nenhum tostão, compreendeu?

O pai arrancou o cheque preenchido do talão e estendeu-o para o rapaz. Roberto apanhou o cheque e olhou brevemente para o velho, evitando encará-lo nos olhos. Sem dizer mais nada, imediatamente saiu do escritório.

Quando Roberto fechou a porta atrás de si, o pai já havia mergulhado novamente no mar de títulos. Não tinha tempo a perder. Ele já se afundara em suas obsessivas transações financeiras. Já se esquecera até da presença importuna do rapaz, que só pensava em dinheiro.

Roberto subiu para o quarto, vestiu uma jaqueta de couro e pegou as chaves da moto. Bebeu mais um gole d’água e saiu chispando pela rua. Atravessou sinais vermelhos e andou na contramão. Passou por sobre ilhas e calçadas, espantando os pedestres, e parou ruidosamente defronte à casa do "chegado". Desceu da moto e, do portão, assobiou conforme a senha.

Como nada aconteceu, Roberto assobiou de novo esperando ser atendido. Não demorou muito para que o rosto do conhecido surgisse por uma abertura nas venezianas do quarto. Ele pôs a cabeça para fora e, esfregando os olhos, reconheceu Roberto através das grades.

- E aí Beto, como é que é, meu? Tudo encima?

- Tudo "legal", cara. Acordou agora?

- Só... Que horas são, bicho?

- Onze e quinze.

- Puta, meu, ‘tá foda acordar...

- Levanta aí, mano. Vamos nessa, meu. Eu descolei a grana!

- ‘Guenta um pouco que eu vou jogar uma água no rosto e me vestir. Já estou indo. – disse o companheiro fechando a janela.

Roberto sentou-se na moto e esperou.

O rapaz logo saiu da casa. Era um pouco mais velho que Roberto e também vestia os inevitáveis tênis, camiseta e calças de brim. Diferente do outro, só mesmo uma surrada jaqueta jeans. Ao aproximar-se, ele disse:

- Beleza, cara, você tem mesmo as manhas!

- É, bicho, o velho regulou mas cedeu.

- Então, vamos pro morro!

- ‘Inda não, maninho. Temos que passar no banco pra trocar o cheque.

- Precisa não, meu. O cara aceita cheque!

- Ah, é?

- Podes crer, bicho.

- Então vamos lá. Monta aí, cara.

O companheiro montou na garupa da motocicleta.

- Vamos nessa, meu. – disse Roberto ansioso.

Roberto acelerou. Eles foram direto para o Morro da Fumaça. Passaram por algumas vielas apertadas, atulhadas de barracos, e entraram num beco sem saída. Pararam defronte a um casebre fechado e desceram da moto. O "chegado" aproximou-se do portão e gritou um nome para os fundos da casa.

Passados alguns instantes, apareceu um indivíduo encorpado, com os olhos ardendo em fogo.

- E aí, moçada? – perguntou ele com voz grossa.

- E aí, cara, tudo "legal", meu? – disse o colega – Esse aqui é o Beto, meu camarada. Ele é nosso, falou? Gente fina.

- E aí? – cumprimentou o tipo.

- Certo. – retribuiu Roberto.

- Então, tem aí, bicho? – perguntou o chegado.

- Só... O bagulho chegou ‘inda hoje! ‘Tamos trabalhando ele. Tem do verde e tem da branca.

- Beleza, meu!

- ‘Cês vão querer?

- E não? ‘Tamos com a grana encima. Só que é cheque, falou?

- "Borrachudo"? – desconfiou o sujeito.

- Nem... Esse é quente! – afirmou Roberto abanando o cheque.

- Então entra aí. Chega mais, moçada.

Precedidos pelo indivíduo, os dois rapazes entraram no barraco pela porta dos fundos. Ali estavam outros dois homens sentados à mesa, concentrados na preparação de parangas de fumo e papelotes de cocaína.

- Nossa... Meu chapa... Quanto pó! – admirou-se Roberto.

- O quê vocês vão querer, farinha ou jereré? – perguntou o traficante.

- Essa branca é da boa?

- Da boa? ‘Cês vão ver... – confirmou o sujeito, esticando quatro grossas taturanas brancas num prato previamente aquecido.

- Dá pra mandar no cordão? – perguntou o camarada.

- É da pura, bicho! Dá uma cafungada. – propôs o tipo estendendo-lhes o prato de pó.

Roberto foi o primeiro a cheirar. Pegou uma nota de dez reais que tinha no bolso, enrolou-a num canudinho e aspirou a droga profundamente. O "chegado" cheirou no mesmo canudo.

- Nossa, cara, essa farinha é da boa mesmo! – disse Roberto

- Muito louca, meu. Já estou trincando. – concordou o parceiro.

O indivíduo cheirou as outras duas carreiras e largou o prato sobre a mesa. Inesperadamente a porta do barraco cedeu, escancarada num ruidoso estrondo. Saltaram para dentro três policiais fortemente armados, apontando para eles e gritando:

- Todo mundo quieto! É a polícia. Mãos prà cabeça! – gritou o policial que empunhava uma ameaçadora escopeta doze de cano serrado.

Roberto e o colega obedeceram imediatamente.

O indivíduo, num salto, tentou pegar seu revólver mas os policiais foram mais ágeis. Ouviram-se três disparos e o traficante caiu espirrando sangue pelo aposento. Após algumas convulsões, o sujeito deu seu último suspiro. Foram duas balas: uma no peito e outra na cabeça.

Atrás do tipo tombou Roberto, atingido no estômago pelo terceiro tiro. O "chegado" curvou-se sobre ele, apavorado. Os dois homens que embalavam a droga tremiam mais do que varas verdes, com os braços levantados e as mãos na nuca

Desfalecendo no chão do casebre, com a cabeça amparada pelas mãos do parceiro, sufocando em golfadas de seu próprio sangue, Roberto ainda encontrou forças para murmurar:

- Ái, bicho, cadê o meu pai?

autor: Don Francis


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