A LOURA DE PRETO

Ouve como o silêncio
Se fez de repente
Para o nosso amor
Horizontalmente...

(Vinícius de Moraes)

Desde a minha querida mãe, que me pariu, as mulheres sempre exerceram grande influência na minha vida. Não sou e nunca fui do tipo mulherengo, foram poucas   as mulheres que amei. Nem contá-las nos dedos. Foram duas: Márcia e Lúcia.

Certo é que tive um breve relacionamento com Renata, um namoro infantil com Vera, um ternário encontro com Polaca, grande Polaca, vários loucos reencontros com Patrícia, um desencontro infeliz com a bela Karen, e Fabiana, a lésbica, e Luciana, sua amiga, e Érika, a religiosa, e Valéria, a testemunha de Jeová. Mas amar, amar mesmo, com paixão e constância, apenas Márcia, minha primeira namorada, e Lúcia, minha querida esposa.

Houve alguém, no entanto, que realmente mexeu comigo. Tanto, que cheguei a retratá-la em várias telas de minha fase figurativa. Uma delas, "A Musa do Pandeiro", até hoje decora uma parede na casa dos meus pais. Mexeu comigo de uma forma que nunca me ocorrera antes e que nunca mais voltou a acontecer. Foram três breves lampejos: primeiro: uma frustração com relação ao meu próprio desempenho; segundo: um enorme prazer em todos os níveis, especialmente para meu ego e para meu amadurecimento; terceiro: uma retumbante lição a respeito da nefasta combinação de álcool e sexo.

Como é efêmera a beleza nesta curta vida...

Laurinha passou por mim aos flashes. Era minha colega no curso de História da Arte. Cabelos louríssimos, naturais, finos como a mais fina seda. Tipo "mignon", não passava dos metro e sessenta. Costumava usar calças "jeans", camisetas e tênis. Daquelas que quando passa por uma roda de homens, alguém sempre exclama:

-Olha lá rapaz, olha só que graça de loirinha. Gostosa!

Era uma graça para todos. E se, para todos, ela era uma graça, para mim, então, que era jovem, solteiro, e morava sozinho num confortável "flat", era bem mais do que isso: ela era, no mínimo, graça e meia! O que posso dizer é que Laurinha era extremamente bela e, principalmente, que eu a desejava muito, demais da conta.

Não éramos íntimos. Nosso contato resumia-se a "oitudobens", algumas vezes seguidos por inofensivos comentários sobre Van Gogh, Dali, Tolouse Lautrec, os impressionistas, técnicas pictóricas da renascença, coisas do gênero. Nada muito além. Apesar disso, rolava uma certa empatia entre nós, coisa de pele, entendeu? Sentia-me irremediavelmente atraído por ela, que parecia nem ligar. Nosso relacionamento permaneceu distante até um dia, o dia da exposição, da retrospectiva de Volpi promovida pela galeria.

Volpi criou uma obra interessantíssima. Especialmente interessante porque soube aproveitar-se das formas e cores de simples bandeirolas de São João como o elemento gráfico fundamental de seu trabalho. Ele desenvolveu uma obra originalíssima revelando-se um artista dotado de imensa capacidade, um exímio grafista e sensibilíssimo colorista. Além do fato de que Volpi é, e sempre será, simplesmente maravilhoso, ele estava na moda, na crista da onda.

Assim, fizemos o maior "badalo". Enviamos convites até para o prefeito, que não veio mas que mandou um representante do gabinete. Um coquetel: queijo e vinho. Sobre a mesa imensa, bengalas de pão italiano de dois metros e meio, "patês" dos mais variados tipos, e camambert, e gorgonzola, e brie, e queijo suíço, talheres, taças descartáveis e muitas, mas muitas, garrafas de vinho tinto, branco e rosê. O DETRAN desviava o tráfego na avenida, tanta gente chegando.

As telas estavam distribuídas pelas salas de exposição à direita e à esquerda da entrada. Todo mundo chique, muito bem vestido, muito bem tratado, muito perfumado. Bruna Lombardi, Rose de Primo, Márcia Valentim, Elke Maravilha, e por aí afora. Eu, naturalmente, como anfitrião, estava "totalmente". Meu Carrera branco brilhava no estacionamento à porta da galeria, entre o Mustang e a Toiota dos meus sócios. O pessoal chegando e a casa enchendo.

O PRIMEIRO FLASH

Quando Laurinha chegou eu estava na calçada defronte à galeria. Conversava com repórteres da Abril e do Estadão. Como era de se esperar, comentário geral. Ela estava linda, simplesmente de arrasar. Seus cabelos soltos esvoaçavam sobre os ombros nus. Vestia um "tubinho" de seda preta, sutilmente sustentado por duas finas e delicadas alças. Sapatos de salto-alto em verniz preto, ostentava colar e brincos de pérolas. Uma pequena fivela de brilhantes presa aos cabelos dourados.

Estava realmente deslumbrante. Quando caminhava, a seda grudava-se-lhe ao corpo, ressaltando as curvas graciosas dos quadris, coxas e seios... A cada passo revelava a marca da calcinha asa-delta, emoldurando as bem contornadas nádegas. Laurinha estava provocante! Dirigiu-se a mim, cumprimentou-me como de hábito e encaminhou-se à exposição. Todos os olhos seguiram-na até desaparecer por entre o público. Permaneci trocando idéias com os amigos barbudos.

Queijos e vinhos vão, queijos e vinhos vêm, muito papo, muita fofoca, muita risada... O pessoal foi-se cansando e começou a ir-se embora. As salas de exposição já estavam quase vazias quando, numa delas, avistei Laurinha, que apreciava as obras. Enquanto eu apreciava sua apreciação, já com aquelas idéias, ela me encarou com o olhar mais doce do mundo. Um olhar que nem a mais indiferente das abelhas resistiria. Sorrindo, aproximei-me:

- E aí, Laurinha, gostou da exposição?

- Muito. O Volpi é mesmo um gênio! - disse ela com entusiasmo.

A partir daí, iniciamos uma animada conversa. Naquelas alturas, tanto eu quanto ela já estávamos literalmente embriagados pelo líquido de Baco e definitivamente atordoados pelas flechas de Cupido. A galeria estava praticamente vazia e nossa conversa jamais terminava. Finalmente saíram todos e ficamos a sós.

Tranquei a porta por segurança e dirigimo-nos aos fundos, onde havia um barzinho perfeitamente sortido. Havia uma sala de estar, decorada no estilo art-decô, com sofás, banquetas e almofadas, além de um tapete inteiriço de três centímetros de espessura. Enquanto Laurinha foi ao toalete, preparei duas generosas doses de uísque. À sua espera bebericava e fumava, apoiado ao balcão.

Ela chegou e retomamos a conversa. E continuamos a beber. Drinques vão, drinques vêm, o inevitável aconteceu. Nossos olhos cruzaram-se mais fundo e revelaram o que, na verdade, queríamos desde o princípio. O conhecido olhar de tesão; encaramo-nos receptivos, com invencível vontade de fazer amor.

Laurinha passou os braços por meu pescoço, eu a segurei pela cintura, e mergulhamos num prolongado e doce beijo de reconhecimento. Seu corpo ardia por baixo da seda. Sentia perfeitamente o formato e a maciez de suas nádegas ao tato do fino tecido. Bunda perfeita, durinha, gostosa. Toquei suavemente seus empinados seios, redondos feito maçãs argentinas, biquinhos intumescidos de prazer.

Quem não queria ficar intumescido, era aquele que mais deveria ter ficado, pois dele, em grande parte, dependia a festa.

Afastei as alcinhas do vestido de sobre seus ombros e ele caiu por inteiro, de uma só vez, deixando à mostra um corpo escultural. Ela tirou minha camisa, desafivelou meu cinto, abriu o botão de minhas calças, abaixou o zíper e enfiou a mão por dentro, acariciando-me plenamente. Eu fazia com ela coisas semelhantes, estava molhada de prazer. Tirei os sapatos e as calças e ficamos abraçando-nos, beijando-nos e roçando nossos corpos seminus.

Ao sentir que o que deveria estar intumescido permanecia apático, Laurinha, pacientemente, apelou para um paciente e delicado banho de língua. Da boca às orelhas, ao pescoço, ao peito, ao umbigo, à barriga. Começou a chupar-me, a engolir-me de tal forma, com voracidade tal que o pimpolho começou a endurecer. Fiquei um pouco mais animado. Mas era alarme falso. Meu amigo não conseguia ficar de pé. Eu tinha bebido tanto que ele estava praticamente desacordado.

Tirei sua calcinha e comecei a chupá-la, naquela posição que alguns chamam de "69", achando que assim ficaria mais entusiasmado. Qual nada, doce ilusão! Ainda bem que, ao homem, sempre resta a alternativa do sexo oral pois, naquele dia, se dependesse do "pintal", Laurinha teria tido uma das maiores decepções de sua vida.

Os vapores etílicos impediram a ereção completa. Não que eu não a desejasse muito, nem que Laurinha não se esforçasse o suficiente. Pelo contrário, tanto ela quanto eu fizemos de tudo para despertar o gigante adormecido. Mas o fato é que ele, assim como o Brasil, permaneceu desacordado. Foi uma experiência realmente decepcionante, pode-se dizer vergonhosa.

Finalmente conseguira conquistar aquela mulher maravilhosa, dando-se inteira para mim. Eu, estupidamente, devido a um excesso etílico, não pude fruir adequadamente aquele raro prazer. Para mim, um prazer fundamental, diga-se de passagem. Laurinha foi a segunda mulher da minha vida. Antes dela somente conhecera Márcia, minha namorada, com quem estive dos quinze aos vinte e quatro anos. Quando ocorreram estes fatos, eu ainda namorava com ela...

Laurinha ainda teve um prazer relativo pois, já que não pude penetrá-la da maneira adequada, esmerei-me ao máximo com a língua. Fiquei muito frustrado comigo mesmo por ter sido tão burro, por ter bebido tanto. No dia seguinte cheguei atrasado à casa de Márcia, onde costumava almoçar aos domingos. E ainda tive que inventar certas justificativas para algumas esfoladuras nos cotovelos (e nos joelhos), provocadas pelo tapete no roçar das inúteis tentativas de penetração.

O SEGUNDO FLASH

Dois meses mais tarde, depois de um acidente de moto, encontrei-me novamente com Laurinha. Estava sozinho em meu "flat", muito à vontade, quando o interfone tocou. O porteiro aviou-me que uma tal de Laura anunciava-se à portaria. De imediato não liguei o nome à pessoa, porém mandei que subisse. Quando vestia as calças, a campainha tocou. Atendi e, para minha surpresa, quem estava ali na minha frente? Pois não era outra senão Laurinha! Ela olhou-me assustada, abraçou-me com força, beijou-me freneticamente e disse:

- Ah meu querido, fiquei sabendo sobre o acidente que você sofreu. Que bom ter ver inteiro! Ainda bem que não aconteceu nada mais grave... - isso, enlaçando-me, com seu corpo colado ao meu.

- É, só estou um pouco abalado porque minha moto ficou detonada. Também tive amnésia, mas já passou. Agora eu me lembro de quase tudo. Mas entra, que boa surpresa você ter vindo! - disse eu levando-a para dentro.

- Pois é, quando eu soube, lá na galeria, que você tinha se acidentado, vim correndo para cá. Já te imaginei todo machucado, quebrado... Ah graças a Deus!

Ela me fez contar a história do acidente tintim por tintim. Perguntou como foi, como não foi, conjeturou como poderia ter sido; preocupou-se por Márcia. Quis saber como estava ela, disse que soube que ela quebrara o nariz. E vai e volta, e caímos no assunto da noite da retrospectiva do Volpi, o dia do fracasso do "Bento". Senti-me na obrigação de justificar meu péssimo desempenho, no que ela contribuiu:

- Não, que nada, não tem nada a ver, nós tínhamos bebido demais, é normal isso acontecer...

- Eu sei que é normal, mas foi muito chato. Ainda mais porque eu sempre senti muita atração por você. Eu te desejava tanto, e quando você me deu a chance, quando você se entregou para mim, não deu pra te fazer feliz. Nem eu nem você gozamos o que poderia ter sido maravilhoso! - afirmei, realista.

- Ah, gozar eu gozei sim, seu bobinho, e várias vezes por sinal... - tornou ela maliciosa, mostrando a pontinha da língua.

- É, não foi de todo ruim, - concordei - mas não foi como devia.

- Ainda é tempo pra desfazer o erro... - tornou ela provocativa.

Voltou-se para mim, abraçou-me novamente e ofereceu-se para um beijo. Estávamos no chão, lado a lado, sobre almofadas. Encostei meus lábios nos dela e, imediatamente, o que não se intumescera na ocasião anterior manifestou-se numa explosiva ereção. Endureceu total e completamente, sem necessidade de sequer um toque.

Durante o beijo trocamos carícias. Ainda não sei bem o motivo, mas é muito gratificante, saboroso mesmo, acariciar e mordiscar seios... Especialmente quando são durinhos. Ou durões... Ainda mais quando ficam com os mamilos eretos. Aí não tem jeito. Dá vontade de tirar ou arrancar a blusa dela e chupar feito um bebê grandão. Não mais chupar o sagrado leitinho materno, agora para apreciar o sabor da fêmea, o precioso suco da mulher amada.

Quando já estávamos em roupas íntimas eu disse:

- Espera aí Laurinha. Aquele dia, lá no tapete da galeria, eu fiquei com os cotovelos e os joelhos esfolados... Vamos prà cama, vai ser bem mais confortável!

E ali na minha casa confortável, na minha cama d’água, desfrutando de todo o conforto e bem estar e, principalmente, sem a maléfica influência que os excessos etílicos exercem no meu desempenho sexual, fizemos um Amorzão, com o A e com o "pimpolho" maiúsculos. Fizemos tudo o que não conseguimos da primeira vez e muito mais: fizemos até o que nem pudéramos tentar. Foi simplesmente magnífico. Cochilamos...

Quando despertamos, Laurinha disse-me que estava com o "saco cheio" de São Paulo, das coisas que fazia, do seu "ex", de seus pais, de seu filho, de tudo enfim... Disse que não agüentava mais a vida corrida e competitiva da cidade. Queria ir-se embora, tentar uma vida alternativa. Ela chegou a propor para fugirmos juntos. Queria ir para o Peru, para a Bolívia, disse que desejava conhecer a Cordilheira dos Andes, Cuzco, Machu-Pichu.

Uma coisa é certa: eu sempre tive arroubos de condor. Mas assim, de repente, largar tudo: a galeria, o estúdio, a Márcia, os conhecidos, os parentes, abandonar meus amigos? Não, nem pensar! Realmente eu não estava disposto a deixar tudo começado, tudo pela metade, em troca de uma aventura radical. Laurinha foi e eu fiquei.

O TERCEIRO FLASH

Anos depois encontramo-nos novamente. A imagem que eu guardava de Laurinha era a que ficara registrada nas telas em que ela posara para mim. Sempre linda, louríssima. Eu gosto em especial de uma dessas telas, em que a retratei com seu filho que, como ela, também era lindo. Marcos herdara toda a beleza da mãe acomodando-a ao formato masculino. Um perfeito Adonis. Seus cabelos sedosos e prateados eram longos, sem chegar aos ombros, compondo uma perfeita moldura para sua face alva, de traços arianos. Seu nariz, bem proporcionado, era reto e aquilino; seus lábios, não muito grossos mas bem desenhados. Suas sobrancelhas retas eram ligeiramente mais escuras que os cabelos. Seus olhos eram de um castanho-claro penetrante.

Na tela, Laurinha posta-se nua, sentada numa cadeira Luís XV, com seu filho também nu, de pé ao seu lado. O fundo é decorado com um bonito drapeado em inúmeros tons de verde. Senta-se ereta, sem apoiar-se ao encosto da cadeira, com o rosto de frente e o corpo de perfil. Seus cabelos dourados passam um pouco da linha dos ombros. Destaquei seu busto perfeito e a lateral de suas coxas e pernas pela iluminação quente lateral. É um retrato figurativo no qual, acidentalmente, conferi um misto de carência e nostalgia aos expressivos olhos azuis de Laurinha. O olhar de Marcos é o mesmo, sem tirar nem por: é o reflexo da melancolia da expressão materna. É uma tela poética.

Neste nosso terceiro encontro eu é que fiquei profundamente decepcionado. Se não me dissessem que era Laurinha, não a teria reconhecido. Parecia outra pessoa, mudou terrivelmente: engordara muito, envelhecera demais... Pareceu-me que toda a beleza que um dia fôra dela, transformara-se em feiúra, expressava-se em desgaste, resultara em acabamento. A duras penas conversamos pouco. Ela não tinha sequer sua antiga lucidez.

Mais tarde fiquei sabendo, por comentários, que ela perdera-se nas drogas. Cocaína, me parece. Soube também que morava em Ilha Bela com amigos, segundo consta. Quando a vi nesse estado, neste terceiro relâmpago, foi com grande, foi com imenso pesar que lembrei das palavras de Riobaldo no "Grandes Sertões, Veredas", de nosso inesquecível Guimarães Rosa:
"- Viver é mesmo muito perigoso..."

autor: Francis F.


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