A CASA DE MASSAGENS

Estava eu na padaria, ao final do expediente, como de hábito, tomando tranqüilamente um cervejinha, quando apareceu um sujeito que me deixou muito "cabreiro". E olha que pra me tirar do sério precisa um motivo realmente forte. Em geral, com minha paciência de Jó, deixo passar muita coisa que para um paulistano médio seria sem dúvida motivo de palavrório e pancadaria.

Era um cara magro, esquelético. Um amontoado de pele e ossos metidos numa camisa, calça e sapatos brancos e surrados. Estava completamente embriagado, bêbado mesmo, em condições lastimáveis. Eu já vira a figura por ali. Chegara inclusive a trocar algumas palavras com ele. Soube que tocava percussão (que ele chamava de "percursão") na casa de massagens ao lado da padaria: "B. Massage for Men".

Meio forçado pela obrigação, meio por pura educação, cumprimentei-o. Pra que... Maldita a hora... Nem tão maldita assim porque, graças a Deus, sou do tipo que consegue extrair algum proveito, uma lição que seja, mesmo dos piores acontecimentos. Pois é, depois foi que me arrependi.

Arrependi-me pelo cumprimento, pela situação que rolou e também pelas conseqüências posteriores do meu relacionamento com o magrão (algumas vezes usei o adjetivo carinhosamente, pensando com ingenuidade que pudesse ocorrer ao menos alguma espécie de amizade entre nós.)

Era um calorento e abafado fim de tarde. Eu estava de cabeça limpa, branca, sossegado. Cumprimentei o "cara" por obrigação e quase fui obrigado a partir a cara do "cara". Conforme soube posteriormente, ele tinha bebido, cheirado pó e fumado maconha. Imaginem só o lamentável estado do "malandro". Ele sentiu-se atraído por meu ingênuo cumprimento e veio em minha direção cambaleando sobre os finos cambitos, com os olhos vidrados, encravados em seu rosto cadavérico.

- Como é que é, meu, tudo em riba? - perguntou com voz pastosa.

- Normal. - respondi sem muita abertura.

- Tá tomando uma geladinha, heim... - replicou ele.

- Pois é, quer um gole? - perguntei sarcástico.

- Não tô muito a fins não, essa cerveja sua tá meia fedida.

Senti-me um tanto ofendido mas desconsiderei. Virei-me para o balcão e "puxei um papo" com o atendente, na intenção de dispensar o "camarada". Nesse momento chegou Ricardo, o marido da dona da confecção onde eu trabalhava. Pediu um Hy-fy (Vodka com suco de laranja) e começamos a bater papo. O tal magrão, em vez de "se mancar" e sair dali, ficou insistindo numa conversa estranha, chegava perto demais pra falar, invadia nosso espaço sem qualquer cerimônia, sem pudor, sei lá, sem o mínimo dos mínimos respeitos. Sem consideração.

Ricardo ofendeu-se e, empurrando-o para trás, disse:

- Cai fora daqui, "xará", deixa a gente sossegado.

O magrela virou fera. Vejam só, queria brigar... Não que eu seja muito forte nem que seja brigão. Até ali somente brigara aos socos uma vez na vida, com meus 8 ou 9 anos. Na verdade, nem briga foi: levei um soco no nariz e a tal "briga" terminou por ali mesmo. Apesar disso, tivera a oportunidade de aprender artes marciais e já adquirira a segurança necessária para não temer as pessoas. E, depois, além disso, vou dizer: pra fazer aquele esqueleto embriagado dormir, apenas um sopro seria mais que suficiente.

O magrão ainda deu-se o direito de ofender-se com o Ricardo e num ato de verdadeiro contorcionismo, pegou seu pé (o dele mesmo) com a mão, esticou a perna e passou o pé por cima da cabeça do Ricardo. Eu segurei o sujeito pelo úmero e falei:

- Escuta, "meu chapa", dá um tempo. Toma um gole de cerveja e deixa a gente em paz.

O "cara" teve a petulância de pegar meu copo de cerveja, que estava cheio, e despejá-lo na pia do lava-pratos, vejam vocês... Apesar de tudo, este incidente acabou por isso mesmo. No dia seguinte ele apareceu outra vez, somente parecia mais sóbrio. Veio em minha direção. Eu virei-me para evitar o contato. Ele aproximou-se e disse:

- Ô nossa amizade, eu queria falar com sua pessoa...

Eu respondi seco:

- O que é, "xará"?

- É o seguinte: que ontem eu extrapolei queria me desculpar. É que eu estava muito louco...

- Tudo bem, tá limpo. - disse eu querendo encerrar "o papo".

- Não, mas eu quero pedir desculpa mesmo.

E começou a desfiar uma série de perdões e que tais que, para mim, pareceu tornar-se uma lesma pegajosa e rastejante. Quando terminou sua ladainha, eu disse:

- Tudo bem, meu, já disse que não tem problema. Está tudo bem, não tem erro...

- Mas não tem erro mesmo??

Eu fiquei em silêncio.

Conversamos outras vezes. Em alguma das conversas cometi a imprudência de dizer-lhe que gostava muito de música, que tocava violão, que cantava e tal. Revendo agora os fatos, percebo que se não fosse tão "besta" não teria sequer expressado o primeiro cumprimento ao magrão. Quando disse-lhe que tocava e cantava, ele arregalou os olhos injetados nas órbitas, escancarou um sorriso "banguela" e afirmou, radiante:

- Aquelas aranha, cê faz aquelas aranha, Tom Jobim, bossa-nova... Cada aranha, heim?

Referia-se ele aos acordes dissonantes executados ao violão, característicos dos amantes da bossa-nova. Eu não fazia aranhas". Adorava acordes perfeitos. Quando muito usava uma sétima em certas passagens harmônicas. Além disso, não sabia a letra, nem a melodia, nem o acompanhamento de qualquer música do Tom Jobim. Veja como nosso relacionamento, desde o princípio, foi desafinado.

Conhecendo minha musicalidade, o magrão convidou-me para ir à Casa de Massagens, fazer um som. Eu, estúpido, fui. O Ricardo foi junto para conhecer a casa. Antes da porta, na calçada, ficavam sempre uns três ou quatro indivíduos no duplo papel de manobrista e leão de chácara. Na fachada de estilo duvidoso, tentando ser "chique", havia um letreiro em baixo-relevo: "B. Massage for Men".

Entrava-se por um corredor que dava numa pequena recepção, com um balcão e uma garota sensual por trás dele. Passava-se por uma porta de molas e subia-se uma escada de largos degraus, chegando a uma piscina coberta e iluminada. Outro lance de escadas e alcançava-se outro ambiente da casa. Em frente havia máquinas de vídeo-game, dessas de fichas, onde o jogador derruba aviões, afunda barcos e enfia bolinhas em buraquinhos tentando provar que é melhor do que a máquina.

À direita ficavam os sanitários, comuns a homens e mulheres. Lá podia-se mijar tranqüilamente, de porta aberta, sem incorrer em qualquer atentado ao pudor. Apesar disso, ao pensar nas doenças venéreas, senti-me um tanto tolhido. Pareceu-me que o mijo podia ficar pra depois. À esquerda, passando por outras máquinas de jogo, havia um amplo salão de estar, com conjuntos de sofás e mesas de centro, iniciado por um bar e terminado por um pequeno palco. Era lá que o magrão se apresentava com seu companheiro aracnófilo.

As paredes do salão eram de espelhos de qualidade inferior, que fizeram com que me sentisse numa casa de espelhos de um circo de interior. Tudo bem. Refesteladas nos sofás e andando pelo salão havia diversas "massagistas" vestidas, ou melhor, nuas, apenas com um reduzidíssimo "fio-dental", que deveria chamar-se "fio-bundal" já que consistia num fio passando pela racha da bunda, deixando as nádegas completamente expostas à visitação pública.

Eu, no entusiasmo do momento, e por já estar um pouco alto, sentei-me num dos conjuntos de sofás onde havia algumas "meninas" e comecei a prosear com elas. Ricardo, que estava mais alto do que eu e que era um grande gozador, começou a brincar com as garotas, fazendo piadinhas e mexendo em suas carnes. Ele pegou uma bunda enorme com as duas mãos e mostrou-a.

- Olha só isso, "xará"! Você já viu bunda mais gostosa, ha, ha, ha, é uma beleza, não é?

Instintivamente, pensei em todos os bacilos, bactérias e cócos (não cocôs, nem côcos), além dos vírus que provavelmente se esconderiam por aquelas entranhas. Mas demos boas gargalhadas. Aí chegou o magrão:

- Como é que é, meu, vai dar uma canjinha aí prà gente?

- Vamos lá. - disse eu sem entusiasmo.

Fomos até o palco onde havia uma timba deitada, um chimbáu, um violão comum com captador e amplificação, e um microfone para a voz. O companheiro do magrão também estava lá. Cheguei-me a ele e perguntei:

- Dá pra colocar um pouco de eco na voz?

- Só, meu chapa, compramos uma câmara de eco beleza.

- Então vamos ver...

Peguei o violão, sentei-me num banquinho ao microfone e comecei a testá-lo.

- Alô, alô, um, dois, três, teste, test, tê.

O cara colocou um eco que mais me parecia estar gritando para as montanhas do Himalaia.

- Ô meu, diminui esse eco aí. - disse eu.

- Não dá, já está no mínimo. - respondeu ele.

Tudo bem. Toquei um acorde perfeito.

- Aumenta o volume do violão. - pedi.

- Não dá, já está no máximo. - retornou ele.

- Certo...

Ajeitei o violão sobre a perna e comecei a seqüência harmônica de uma música do Bob Marley, na versão de Gilberto Gil: "No Woman no Cry", "Não não Chores Mais". O magrão acompanhou-me na timba e no chimbáu. A canção ecoou pelas paredes de vidro e prendeu a atenção de "massagistas" e "massageados". O eco embolou tudo e o violão, muito baixo, foi encoberto pela "percursão", mas tudo bem. A seguir toquei uma música do Agepê que fala de amor físico: "Quero ir na fonte do teu ser e banhar-me na tua pureza, guardar em potes gotas de felicidade, matar saudade que ainda existe em mim..." e por aí afora.

Imaginem um samba com um eco daqueles... Não importa, o pessoal gostou. Só não aplaudiram porque a casa era mais para shows de cama do que para shows de palco. Quando terminava a música, percebi um "bochicho" na entrada do salão, perto do bar. Um dos manobristas-leões-de-chácara subia apressado fazendo um gesto típico, esfregando as unhas ao lado do peito, querendo indicar "sujeira, meu, pintou sujeira".

Ele dirigiu-se rapidamente para o Ricardo e trocaram algumas palavras. Rica levantou-se apressado e foi saindo do salão sem ao menos me avisar. Quando notei que ele tinha saído mesmo, fui verificar o que acontecia.

- Ô meu chapa, o quê houve? Por quê ele saiu assim? - perguntei ao sujeito.

- A mulher dele tá esperando lá fora, bicho. A coisa sujou. Ela tá puta da vida, tá soltando faísca.

- Ih, cacete!

Peguei minhas coisas, dei uma bicoca numa gatinha que tinha gostado do som e fui atrás do meu amigo. Chegando à rua, cadê o Ricardo? Nem sombra. Fazer o quê... Subi até a avenida Santo Amaro e tomei o "Little River", o Rio Pequeno, voltando para casa. Cheguei por volta das duas da manhã, embriagado e, como ninguém é de ferro, com vontade de fazer amor com minha mulher. Que idéia... Ela já estava no décimo sono e, apesar dos meus insistentes e obscenos carinhos, ela negou-se a trepar comigo.

Fui "obrigado" por minha natureza escorpiniana a masturbar-me no banheiro. Mais aliviado, desmaiei até o dia seguinte. Acordei ressacoso. Mesmo assim fomos até Cotia para o aniversário do filho do irmão da Valéria, a esposa do Ricardo. Dá pra imaginar o que rolou?

Nem bem chegamos, percebi o ambiente pesado. Algo estranho pairava no ar. O Rica não me cumprimentou. A Valéria virou-me a cara. A cachorrinha dela, a Vicky, rosnou pra mim. Eu não dei bola. Pra mim estava tudo bem, não estava nem aí com o que acontecia. Enquanto brincava com as crianças na piscina, vi minha esposa conversando com a Valéria e um grupo de mulheres. Pela gesticulação notei que o papo estava animado e que tratava-se de algum assunto muito sério, daqueles em que se exige que as pessoas tomem uma posição definida. Daqueles assuntos que se tem que dizer sim ou não, concordo ou discordo, e sustentar a posição com argumentos que, por melhores que sejam, jamais convencem.

E eu, nem aí. Estava me divertindo com o frescor da água, com o calor do sol, com a paisagem em volta e, principalmente, fruindo a vida com a energia e a saúde das crianças. Comemos uma belíssima "paella", tomamos uma refrescante "sangria" e depositamos em nossos ventres uma generosa quantidade de cerveja. Valéria chamou-me, assim como quem não liga, como que de passagem, e disse:

- Você hem... Pervertendo o Ricardo, levando ele pra essas casas de massagem...

- Olha Valéria, eu não levei o Rica pra lugar nenhum, ele foi porque quis.

E ela, com a magnífica intuição feminina, retrucou:

- Vocês vão a essas porcarias só pra se dar mal e pegar doenças.

- Nós não fomos lá pra dormir com ninguém. Eu fui convidado a tocar e o Ricardo foi comigo pra conhecer a casa. Vou te contar uma coisa muito íntima, pra provar que não estou mentindo. Mas por favor não conte nada a ninguém porque é uma coisa muito íntima mesmo, só eu e você vamos saber disso, entendeu?

E contei-lhe o negócio da masturbação. Depois disso ela ficou mais calma, o ambiente melhorou e o Ricardo voltou a falar comigo. Mal, ou bem, sabia ela que o Rica era o maior "play-boy". Bem, ou mal, sabia ela que ele saia com todas as garotas que conseguisse conquistar. Naturalmente, sem que ela soubesse... Mundo de aparências...

Mais tarde, sobrou de novo pra mim. Minha esposa fechou a cara e cobrou-me explicações. Eu contei o que se dera, com naturalidade. Disse-lhe que fôra fazer um som e tal. Ela implicou um pouco mas compreendeu. Ela bem me conhece e sabe que não minto. Sabe também que às vezes sou dominado por impulsos incontroláveis que me levam a fazer coisas das quais às vezes venho a arrepender-me posteriormente. De qualquer forma, são experiências existenciais. Como dizia Roberto Carlos: "o importante é que emoções eu vivi..."

Mas a coisa não para por aí. Outro dia, na mesma padaria, o magrão apareceu de novo. Estava relativamente lúcido e queixava-se da vida. Que assim não dá, que não tinha grana, que isto, que aquilo, que nem uma bateria ele podia comprar, que se tivesse uma poderia dar aulas prà garotada, tocar num conjunto, coisas do gênero. Então o burro aqui, compadecido com o sofrimento dos outros, deu a idéia de escrever uma carta para o Sílvio Santos, escrever para "As Portas da Esperança" e, quem sabe, ganhar uma bateria.

Elaborei o texto de uma carta e levei-a para o "caveirinha". Li a missiva para ele e disse-lhe que a copiasse de punho próprio e que a enviasse ao programa. O magrão adorou a carta, achou-a ótima, mostrou-a para todos os conhecidos. No embalo, convidou-me novamente para tocar na casa de massagens, para "dar mais uma canjinha". Disse que o pessoal tinha gostado do meu som.

Assim, sem mais nem menos, vi-me outra vez naquele salão espelhado, rodeado de putas e clientes, tomando uísque, enchendo a cara. Estava ainda mais cabreiro que da primeira vez porque tinha acabado de ouvir uma história, não sei se verdadeira ou falsa, mas possível, que me deixou muito sensibilizado com relação aos problemas da promiscuidade e da falta de lucidez.

Um colega de trabalho contou-me que um colega de um colega de sua esposa saiu com uma mulher, uma "massagista" belíssima, um "loiraço", dessas de parar o trânsito. Diz que foram a um motel e passaram uma noite de amor completo, tipo sexo total. Quando o cara acordou na manhã seguinte, diz que a mulher não estava mais lá. Levantou-se e foi ao banheiro tomar uma ducha. De repente, deparou-se com um recado escrito em batom vermelho no espelho do armarinho do banheiro. Diz que estava escrito:

"Parabéns, você acaba de entrar para o clube da AIDS!"

Diz que o cara ficou chocado mas ainda restava a esperança de que fosse um blefe, uma gozação, sei lá. Fez os exames e constatou que de fato adquirira o vírus dessa terrível doença que destrói as defesas do organismo.

De qualquer maneira, meu objetivo não era o de trepar com as putas mas sim o de tocar e cantar para uma platéia, coisa que sempre me fascinou. Sentei-me num conjunto de sofás perto do palco onde o magrão e seu colega tocavam. Pedi um uísque enquanto esperava minha vez. Os caras tocaram uma seleção de "aranhagens" tal que, para agüentar, só mesmo com uma bela dose de soro do Instituto Butantã. Eu esperava. Falei com o magrão e ele disse que estava "russo", que isto e que aquilo.

Em vez de ir-me embora, já que estava definitivamente contaminado com pela peçonha, pedi mais um uísque e fiquei sentado, olhando o movimento. Bundas de fora, caras de "robe de chambre", agarra-agarra de meninas, muita putaria e aquele som aracnídeo do magrão e do seu comparsa.

Não agüentei. Fui ao palco e destruí um tamborim. Tomei outro uísque. O violonista, enciumado, não permitiu que eu tocasse no instrumento. Eu, muito estúpido, fiquei até o final, até que eles resolveram parar. Eu saí bêbado, gastei um dinheiro que poderia ter usado para coisas melhores e, acima de tudo, completamente frustrado.

Estava frustrado comigo mesmo, com minha atitude perante a vida, por ter-me deixado levar por uma besteira daquelas quando há coisas tão mais importantes para se fazer. Por exemplo, meus filhos. Chegara a negar-lhes uma bala, um chiclete... Bem, de qualquer modo aprendi algo: pagando e sofrendo, aprendi a confiar na intuição e nos fatos da vida e, mais que nada, aprendi a cultivar a lucidez plena que, pelo que parece, vem a ser a maior das loucuras.

autor: Asdrúbal


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