A CADELA DA MINHA CHEFA E A PAVOA DO MEU PATRÃO

Escrevo isto pois é digno de nota. Antes de qualquer coisa, devo esclarecer que sinto verdadeiro orgulho de trabalhar numa empresa que é absolutamente "sui generis". Não que ela seja propriamente diferente das demais pelo que fazemos, nem pela maneira com que oferecemos nossos serviços, mas é especial, diferenciada, devido ao fato de vivermos, todos os funcionários da empresa, num  estado de preocupação constante. Coisa rara hoje em dia, não é mesmo?

Mas os motivos de nossa perene preocupação são os seguites, por ordem de importância: primeiro vou citar a cadela da minha chefa. É daquelas cadelinhas chatas, cri-cris, pentelhas que não percebe seu tamanho e vive latindo pra todo mundo. Daquelas que você vai fazer um agrado, um carinho, e ela mete o dente sem dó nem piedade. Mas o que mais nos preocupa, não é a cadela que felizmente já se foi, mas principalmente, com a pavoa do meu patrão. Sim, porque pavão macho é mais manso, mais calmo, e creio que não arma tanta confusão. Talvez por causa do peso do rabo...

Pavoa não, pavoa fêmea é mais redundante, mais leve, mais ágil. Ela adora, literalmente, viver empoleirada. Já pavão macho não, ele abre redundantemente o leque de uma cauda explêndida, de cores luminosas e desenhos de rara simetria, e fica só trombeteando por aí, só chaqualhando o penacho pra ganhar atenção de quem estiver por perto. Pavoa não, ela tem o rabo leve e "avoa" com extrema agilidade. Ela ama de paixão viver empoleirada em lugares altos, os mais altos possível, e não gosta sw viver presa entre quatro paredes, que na melhor das hipóteses, é o máximo que se pode exigir num escritório.

Pois bem, deu-se um dia que a pavoa do meu patrão resolveu, como se diz na gíria, "dar o fora", "puxar o carro". Certamente achou que o espaço estava muito justo, limitado em suas aspirações de grandeza. Eis que senão quando ela decidiu voar para longe daquele lugar repeleto de humanos incompreensíveis. Para tanto, ela certamente passou por dificuldades terríveis pois teve que atravessar uma grade de aço que havia sido colocada por sobre as quatro paredes que a prendiam. Fez que fez que acabou por alcançar sua tão almejada liberdade.

No dia 31 de Dezembro, passagem de ano, a pavoa do nosso patrão "pulou fora", ganhou espaço pelos telhados da vizinhança, dando boas vindas ao ano novo, gozando o prazer de voar liberada. Parece que finalmente o meu patrão resolveu soltar de vez a pavoa pois para ele, soltar a franga seria pouco... Bem, o fato é que liberou-se, a pavoa do meu patrão!

Talvez pra não ficar pra trás, no dia 1 de Janeiro, pleno dia de Ano novo, a cadela da minha chefa decidiu, num ímpeto de fúria, rasgar centenas de metros de tecido da confecção. Reduziu rolos e rolos da melhor seda, casimira e algodão a tiras! Como se não bastasse, desceu correndo as escadas e deu uma mordida na bunda do seu Osório, o pobre do vigia. Depois saiu como louca, correndo pelo bairro afora, latindo alto e rosnando pra todos passantes.

Coisas da vida... Fazer o quê? Fizemos o seguinte: como o dia 31 caiu numa quarta-feira e dia 1 na quinta, o pessoal na empresa decidiu "emendar" as revelações com o final de semana. Assim, concordamos por unanimidade tirar uma espécie de férias coletivas, em homenagem ao sumiço da cadela da minha chefa e a pavoa do meu patrão.


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