A CABEÇA DE MINHA FILHINHA

Eu estava brincando com uma amiga no quintal, quando ela cismou de querer minha bonequinha emprestada. Eu falei que não emprestava. Então, ela me disse:

- Ah, vai, me empresta a sua boneca. Me empresta, vai, amiga...

Eu falei para ela:

- Já disse que eu não vou te emprestar a minha boneca!

- Ah, é? E por quê não?

- Pelo simples motivo que ela é minha!

- Ah, vai, empresta, vai. Só um tiquinho... Me empresta ela, vai.

- Não empresto. Ela é a minha filhinha! Já disse que eu não te empresto ela e pronto!

- Ah, vai, empresta ela só um pouquinho, vai... Eu devolvo ela pra você!

Aí a menina deu um pulo e tentou arrancá-la dos meus braços. Eu agarrei minha filhinha com tanta força que, depois de um puxão mais forte, ela acabou com a cabecinha separada do corpo.

Me deu uma raiva... Eu comecei a chorar. Abri o maior berreiro. Entrei em casa correndo, com o corpo de minha filhinha numa das mãos e a cabecinha dela na outra.

Aos prantos, eu gritei:

- Mamãe, mamãe! Mamãe, olha só! A garota matou a minha filhinha. Olha, mãe! Olha só o que ela fez com a minha filhinha!

De costas para mim, lá do alto de sua estatura, mamãe ralhou comigo:

- Não incomode menina! Você não está vendo o quanto estou ocupada arrumando esta bagunça que vocês fizeram?

- Mas mãe, – disse eu desconsolada, entre os soluços, agarrada às saias dela - como é que eu vou brincar agora?

- Eu já disse pra você não incomodar, garota! – ameaçou mamãe.

- Mas mamãe... – eu choraminguei.

- Vá já pro seu quarto! – ordenou mamãe sem ao menos olhar para mim - Brinque de outra coisa, sua tonta!

Eu estava cada vez mais irritada. Sentia uma espécie de um nó na garganta. Fiquei com muita raiva. Me deu uma vontade enorme de gritar.

Impulsivamente atirei longe a cabeça da minha filhinha.

A cabecinha de minha filha foi rodando pelo ar. Foi chicoteando os cabelos loiros e compridos. Ela rodou, rodopiou, até dar de cara com o vaso de porcelana de mamãe.

O vaso rolou, virou, e acabou perdendo o equilíbrio. No espanto da situação, o vaso caiu no chão fazendo o maior barulho. Foi um tremendo choque para minha mãe.

O vaso espatifou-se em cacos.

Com o barulho do vaso quebrando, mamãe olhou para mim. Seu rosto estava vermelho. Seus punhos estavam cerrados. Seu olhar faiscava como os raios das armas "laser" dos heróis da TV.

- Sua sem-vergonha, imprestável! Sua desastrada! Menina má! – gritou mamãe, furiosa.

Eu estava em estado de choque.

- Viu só o que você fez, menina?! Viu só, sua garota malvada?! – disse mamãe cuspindo saliva.

Ela agarrou meu bracinho fino e deu-me um puxão tão forte que me fez voar. Quase esfregou minha cara nos cacos do vaso.

A cabecinha de minha filha também estava lá no chão, arrancada do corpo, descabelada e de olhos arregalados.

- Olha só o quê você fez! Seu diabo, sua destruidora. - disse mamãe aos berros.

Ela soltou meu bracinho que ficou roxo do apertão e começou a recolher os cacos, ajoelhada no assoalho. Pegou os caquinhos com todo o cuidado, do jeito que ela pegava seus brincos de brilhantes.

Foi pondo os pedaços de vaso na palma da mão. Olhava para eles em desalento.

- Meu vaso. Meu querido vaso... – disse mamãe com tristeza e carinho.

De repente ela olhou pra mim de um jeito... Sei lá, ela espumava de raiva.

- Sua peste! – cuspiu ela - Menina malvada! Nada pára nesta casa por culpa sua. Você ainda vai acabar destruindo tudo.

Ela estava alucinada.

- Vá já para o seu quarto! – ordenou mamãe movendo furiosamente o braço, apontando a escada com o indicador.

Eu estava muda. Não podia sair do lugar. Eu queria ir para o quarto. Eu gostaria de obedecer à mamãe.

Fazia força, mas as minhas pernas não correspondiam. Sentia a cabeça branca de espanto. Fiquei congelada como na brincadeira de estátua.

De repente mamãe jogou todos os cacos no chão e agarrou minha orelha. Ela puxou com tanta força que eu tive que me sustentar na pontinha dos pés.

Completamente irada, mamãe gritou:

- Além de desastrada você é surda, é, menina? Não ouviu que eu acabei de mandar você pro quarto?

Com uma das mãos mamãe puxava-me a orelha. Com a outra, ela batia com força na minha bunda.

Eu queria ir para o quarto, mas não conseguia mover-me. Eu estava paralisada pela dor aguda daquele puxão de orelha.

Meu corpo todo era chacoalhado pelas vigorosas palmadas de mamãe.

Num puxão mais forte, ela me atirou aos pés da escada que dava para os dormitórios. Eu fiquei caída, chorando baixinho, abraçada com força ao corpo da minha filhinha querida.

Mamãe, então, berrou:

- E leva também esta porcaria!

Ela jogou a cabecinha da minha filha, com toda a força, bem na minha cara.

Eu peguei a cabeça da minha filhinha e subi correndo pelas escadas. Entrei rapidamente no quarto. Fechei a porta ruidosamente e joguei-me na cama. Afundei o rosto no travesseiro, e chorei até não poder mais.

Naquele momento eu odiava a garota e a minha mãe. Naquele instante eu odiava tudo. Quando parei de chorar, lembrei-me de minha filhinha.

O corpo estava comigo, na cama. Mas onde estaria a cabecinha?

Procurei embaixo da cama, sob o travesseiro, no tapete do quarto, encima da prateleira...

Onde poderia estar a cabeça de minha filhinha? Fui até a janela e olhei para o quintal. Fiquei com vertigem ao ver a paisagem do alto.

A menina ainda brincava, sozinha, sob a intensa luz do sol. Debrucei-me na janela atrás da cabecinha de minha filha. Inclinei tanto o corpo que ouvi meu coração batendo nas têmporas.

Onde estaria a cabeça da minha filhinha?

Fiquei tonta e com sono lá em cima. Estava meio pensa na janela. De repente, sonhei que estava escorregando.

Então, senti que alguém me puxava bruscamente para dentro do quarto, agarrando-me pelos ombros, com violência.

Ouvi mamãe gritando:

- Você está louca, menina? Está querendo se matar, é? O quê você estava fazendo lá pendurada? Sua louca!

Sem dar-me tempo necessário para a resposta, ela me atirou na cama. Fechando a janela, mamãe virou-se para mim:

- Pois fique sabendo que agora a senhorita vai ficar de castigo pra aprender a ser boazinha. Vai ficar presa aqui no quarto até o seu pai chegar do trabalho, ouviu? Eu vou contar tudinho o quê você fez pra ele, está ouvindo? Você vai ver só...

Apavorada, eu me encolhi num dos cantos do quarto. Fiquei acocorada, em posição de feto. Mamãe trancou a porta à chave. Chorei mais, muito mais, com medo da bronca que ia ganhar do meu pai. E quem sabe outra surra!

Eu pensei em fugir de casa, em ir embora dali. Naquela hora eu queria fugir da vida. Eu desejava que aparecesse a fada madrinha e que ela me devolvesse a minha filha inteirinha, com cabeça e corpo e tudo.

Queria ela para brincar comigo, para que ela fosse somente minha.

No meio do meu desespero foi que a vi: ela estava ali, jogada embaixo do guarda-roupas, tombada ao lado de uma barata de pernas para cima. Ela estava toda suja de poeira, ‘tadinha.

Eu a vi com estes olhos que a terra há de comer. Ela estava lá, abandonada, sem corpo nem alma. Seus olhinhos de vidro estavam arregalados. Seus cabelos estavam desgrenhados pela ira.

Minha surpresa foi quando eu vi que, apesar de tudo, ainda sorria mim, a cabeça de minha filhinha.

autor: Don Francis


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