Tudo em Ordem?

Tudo em Ordem?

Era a quarta vez em menos de duas horas que Folley conferia os instrumentos. Não sabia bem o motivo, mas aquele homem a beira da aposentadoria já não era mais o mesmo jovem e preciso Engenheiro Nuclear de 35 anos atrás.
A carreira de Folley tinha a mesma idade da Velha Usina. Ele sabia muito bem que ambos já estavam com os dias contados. Uma Usina Nuclear tinha a vida útil de no máximo 40 anos e talvez seja por isso que Folley se tornara um homem tão duro e preocupado ultimamente.

A rotina do final do turno noturno foi quebrada quando o telefone tocou. Folley deixou o lápis mordido na mesa e atendeu com ar enfadonho.

_Folley falando.
_Está tudo em ordem? - disse uma voz que o engenheiro não conhecia.
_Hã? É lógico que sim! Quem está falando?
_Você tem certeza que está tudo em ordem?
_Lógico que sim!! Quem está falando?

O tom de discagem do telefone mostrava que alguém acabara de desligar do outro lado. Folley olhou assustado para o fone como se esperasse que o aparelho lhe dissesse quem estava do outro lado da linha. Com a testa molhada de suor e as mão cheias de ácido úrico, o nervoso Folley olhou de soslaio e começou a conferir mais uma vez todos os indicadores de temperatura do Reator Nuclear.

Quando o sol começava a se mostrar timidamente, Folley chegou em casa e viu o filho pequeno e a esposa dormindo. Ele trabalhava no turno noturno e apesar da vantagem de ganhar mais, só tinha contato com a família nos finais de semana... mas afinal ele não era de muito "contato". Ele sempre fora um homem solitário e continuou assim mesmo depois de ter uma família.
Era o final de mais um turno, quando o lápis já estava sendo mastigado, é que o telefone do painel tocou novamente. Ele estava mais nervoso que o normal. Seu trabalho, que era monitorar a temperatura do reator principal, exigia calma e frieza em momentos críticos. Ele não estava bem uma coisa e nem outra e se acontecesse algum problema (coisa praticamente impossível), as coisas poderiam "esquentar".

_Folley falando! - disse com o peito disparado .
_Está tudo em ordem?
_Quem está ai? É claro que está tudo em ordem! - disse Folley com os olhos pregados no caleidoscópio de controles e luzes do painel.
_Tem certeza Folley? Acho que você deveria fazer uma verificação total.
_Não gosto de brincadeiras! Quem está falando????
_Só quero ajudar Folley... - a voz deu lugar ao tom de discagem novamente.

Folley quebrou o lápis na boca. Começou a andar de um lado para o outro na sala e a esfregar as mãos molhadas no rosto. Pegou todas as tabelas e gráficos e começou novamente a rever todos os parâmetros.
_Temperatura do Reator - OK
_Pressão Interna do Reator - OK
_Pressão Externa no Tanque - OK
_Temperatura dos Grafites - OK
_Fluido de "água pesada" - OK
_Entropia do Sistema - OK

Continuou com a extensa lista até o final e quando lá chegou, recomeçou a verificação. Quando havia terminado a terceira rodada, o telefone tocou novamente. Ele estava tremendo e teve dificuldade de pegar no fone.

_O que você quer?
_Calma Folley! Só quero saber se está tudo em ordem....

Na sala de segurança interna da Usina, o guarda noturno foi desviado da atenção de sua revista erótica por uma movimentação num monitor do canto do painel. O guarda viu um homem gesticulando como um louco e gritando com o telefone. O homem, que era o próprio Folley estava completamente fora de si. Não querendo esperar mais, o guarda chamou pelo interfone o Chefe de Operações.

_O que foi Sam? - perguntou o Engenheiro de Segurança ao chegar.
_Veja senhor! O Sr. Folley está maluco.
_Mas com quem ele está gritando ao telefone?
_Eu já verifiquei a linha... Ele está falando sozinho há mais de 1 hora! Não tem ninguém falando com ele! Olhei também as gravações dos dias anteriores e sempre nessa hora ele grita ao telefone. E sempre sem ninguém na linha!

Nesse momento Folley colocou o fone no gancho como um jogado de futebol americano faz um "touch-down" . Começou a correr pela sala olhando com desespero os instrumentos impassíveis. Um sentimento de pânico tomou conta do engenheiro nuclear. E se os instrumentos estiverem errados? E se tudo não estivesse bem?.
Ele estava suando à bicas e começou a imaginar se o reator também não o estivesse. Folley chegou ao controle de válvulas de arrefecimento do reator e começou a abrí-lo mais.

_O que ele está fazendo? Ele está abrindo as válvulas!!! - disse o assistente do Chefe de Operações que acabara de chegar à sala de segurança.
_Mandem a segurança lá agora! Ele pode causar um acidente com isso! - ordenou o Engenheiro Chefe apontando para o monitor.
_Mas o Sistema não é a prova de falhas humanas senhor?
_Todo sistema de segurança bom é a prova de falhas humanas... mas nunca se inventou um sistema imune ao ser humano. Ele está abrindo a válvula deliberadamente. Não existe nada que seja a prova de má fé!
_Guarda! Ligue para ele! Vou tentar falar.

Enquanto a equipe de segurança esmurrava a porta trancada da sala de arrefecimento, Folley em seu delírio, diminuía pressão interna do reator. Agora sim os instrumentos estava piscando como uma árvore de natal.

_Aha!!!!! Vocês acham que eu acredito em vocês??? Eu sei que tudo não está em ordem!! Mas eu vou colocar isso agora!!!! Aha!!! - gritou para o painel latejante como se ele fosse um inimigo. Ele andava em movimento pendular na sala como uma fera enjaulada. De repente o telefone tocou!

_O que foi agora? Está tudo em ordem agora??? - berrou Folley
_Folley!!! E o Jonas!! O que você está fazendo homem??? Está diminuindo a temperatura do reator e fazendo a "água pesada" vazar! Isso irá partir as pastilhas de grafite!! Você sabe muito bem o que pode acontecer! Pare com isso!
_Não me venha com essa conversa mole! Vou colocar tudo no lugar agora!
_Folley! Você está doente! Tudo está em ordem! Você é que não está em ordem! Você esteve falando sozinho ao telefone a noite toda!
_Hã?

Os níveis de segurança estavam quase expirados. O "alerta amarelo" já estava ativado e o comando e evacuação da Usina já estava operante. Jonas mandou todos a seguirem o manual e saírem da Usina. Ele ficaria na sala tentando convencer Folley a fechar as válvulas.

_Folley! Você está ouvindo a sirene? É a ordem de evacuar a Usina. Feche a válvula antes que seja tarde demais.
_Como você descobriu que eu estava falando ao telefone? - perguntou o Engenheiro com os dedos na boca. Mostrando um visível desequilíbrio emocional.
_O sistema de monitores internos viu você gritando para uma linha vazia. Folley! O problema não é com a Usina... é com você!
_Hã?
- Folley ficara imóvel como uma estátua. De repente ele viu que "ele" é que realmente não estava em ordem.
_Feche as vávulas Folley!!

Apesar do pequeno vazamento, tudo ficou retido dentro do próprio reator. A Usina ficou inoperante por um mês até que tudo fosse novamente ajeitado e o "lixo nuclear" devidamente embalado e enviado à um local seguro... sé é que podemos usar esse termo.
O Engenheiro Nuclear Folley teve uma aposentadoria compulsória e enviado à uma clínica de repouso depois que foi constatado que uma bomba relógio em forma de stress quase arruinara a vida de milhões de pessoas.



M.P.D.

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