Prometeu e o Fogo

Prometeu e o Fogo


Há horas que Tom olhava para um ponto no infinito entre um painel, uma cadeira e o chão da vazia Ponte de Comando da Prometeu. Ele sabia que não havia mais nada à fazer além de esperar. De repente acordou do "transe" e checou novamente os controles de navegação e confirmou aquilo que já sabia, a Prometeu estava em rota de colisão com Sol.

O relógio na parede marcava 12:00 pm da Terra, isso significava que as 13 cápsula individuais de fuga dos outros tripulantes já deveriam ter sido resgatadas pelas naves da Estação Marte perto do sinturão de asteróides de Kruiper. Tom era o único tripulante a bordo, pois a explosão que causara toda essa situação, havia destruído 3 cápsulas das 16 disponíveis, além da enfermaria, dormitórios e um dos hangares internos. Não foi difícil decidir quem ficaria na Prometeu para morrer já que Tom era o mais velho e Comandante do Cargueiro.


Tom desmembrou as partes avariadas do resto da nave (elas chegariam ao Sol alguns dias depois da Prometeu). Para passar o tempo, Tom assistiu à todos os filmes e ouviu à todas fibras lasers da sala de recreação multi-mídia, comeu todas as latas de sorvete e bebeu todas as cervejas da cozinha. Vagou por toda nave -com exceção dos módulos que estavam sem acesso por causa da explosão-, fez uma faxina na Ponte de Comando, horas de bicicleta ergométrica e jogou paciência até amarelar as cartas (preferia pôquer, mas não havia parceiro). Tom só evitava um local, o observatório da nave. Sempre fora um homem forte, frio e corajoso, mas a idéia de ver o grande globo incadescente se aproximando a uma velocidade de mais de 50 mil quilometros horários era um pouco demais para ele. Pelo menos era o que ele achava.

A temperatura dentro da Prometeu já estava ficando incômoda, já que o condicionador de ar se fora com a explosão. A nave havia acabado de passar por Mercúrio e a força gravitacional do planeta só contribuira para aumentar a velocidade da nave, apressando assim a colisão. Tom e o computador já haviam previsto isso desde o dia da explosão, de modo que não foi nenhuma surpresa. Para ser mais exato, a Prometeu sofreu um pequeno desvio na rota e assim nunca iria colidir realmente com o Sol, pois na verdade, ela passaria bem próxima da órbita da estrela. A viagem estava chegando ao fim, mais alguns dias, toda a nave estaria "fritando" e o tripulante seria apenas um nome da história. A calor estava ficando insuportável e Tom vagava pela nave com o canudo da garrafa de água na mão para não ficar mais desidratado. Por alguns momentos, Tom pensou em esperar a morte chegar, mas o instinto humano de sobrevivência falava mais alto.

Com uma temperatura de alguns milhões graus centígrados a Prometeu seria transformada em poeira cósmica, com exceção do novo satélite solar Ícaro que estava em um dos porões de carga, pois era única coisa a bordo que aguentaria sem problemas o bombardeio incessante dos raios solares. O Tripulante olhou o inventário da carga.
_Pena que a nave não é feita do mesmo material, senão seu interior estaria a salvo, e eu tb!... Nossa!!!!!!
O capitão flutuou até o hangar o mais depressa possível, pegou sua maleta de ferramentas no almoxarifado e entrou. O hangar -18 tinha uma luz azulada já que o novo satélite era feito de um material com tecnologia de ultima geração. Com uma reflexão de quase 100%, ele ficaria até invisível para que não olhasse com cuidado. Como os raios solares são ondas eletromagnéticas, quase sua totalidade seria refletida pelo caríssimo satélite, deixando-o imune à temperatura, impedindo a toca de calor.
Tom começou a trabalhar rápido, transpirando a bicas, pegou suas ferramentas e começou abrir o Ícaro. O satélite não era muito pequeno, tinha o tamanho de uma geledeira grande. Ao abrir a porta de manutenção, Tom viu o mar de instrumentos e equipamentos do satélite. Chegou a conclusão que levaria tempo para terminar o trabalho, e ele não tinha muito.
O primeiro dia foi duro. Tom havia bebido 9 litros de água. Suas roupas estavam ensopadas e parte dos esquipamentos eletrônicos da Prometeu já estavam defeituosos. Mais um dia de trabalho seria o suficente para terminar. O sentimento de poder vencer a morte o havia dado forças que nem imaginava. Durante dois dias só parara o trabalho para beber água e comer alguma coisa. As portas automáticas da Prometeu não funcionavam mais, alguns comandos de navegação da Ponte apagaram e as luzes piscavam. Ele só torcia para que o gindaste e o rádio da nave aguentasse por mais algumas horas.

Horas depois, todo o interior do satélite estava no chão do hangar. Milhões de dólares estavam esparrados em montes ao lado do satélite. As luzes da Prometeu não funcinavam mais e a única luz que Tom dispunha era a lanterna do traje espacial que colocara assim que o casco da nave começou a ranger. Tom pegou o rádio, que por milagre ainda funcionava e mandou suas coordenadas e o plano que havia criado para a Estação de Mercúrio. Deixou a mensagem repetindo e voltou ao hangar. Lutou muito para poder abrir as portas automáticas manualmente e o seu corpo dolorido e desidratado estava perdendo as forças. Chegou até o angar, colocou o satélite no gindaste manualmente e fez a descopressão do angar. Colocou um cabo prendendo-o ao satélite e abriu a porta do angar.
Pela primeira vez Tom vira o Sol depois da explosão. O visor do capacete aguentava bem a radiação e Tom pôde ver a imensa bola laranja ocupando 30 graus da visão. Seu trage não aguentaria muito mais aquele bombardeio de radiação eletromagnética. O braço mecânico do gindaste levou o Ícaro para fora e assim que estava uns 15 metros da Prometeu, Tom destravou o braço do gindaste e o satélite foi solto no espaço.

Ele não tinha muito tempo, seu corpo já começava a arder e a integridade do traje já estava comprometida. Tom usou o cabo para chegar ao satélite, com muita dificuldade entrou pela porta e cortou o cabo com seu maçarico laser de bolso. Repirou fundo, ligou o pequeno rádio farol que já estava dentro do satélite e fechou a porta. Tom só conseguia ficar de cócoras dentro do satélite, acendeu a lanterna do capacete e verificou a vedação interna. Tudo estava em ordem. Tom teria que ficar 2 semanas naquela possição até que o satélte desse a volta no Sol e fosse expelido pela gravidade solar de volta à Mercúrio (pelo menos era isso que seus cálculos junto ao computador lhe dissera). Suando muito, ele bebeu um grande gole de água no canudo do capacete e mordeu as 3 cápsulas de hipersono que mantivera embaixo da lingua desde de que colocara o traje. Ele esperava dormir por todo o tempo da viagem enquanto o pequeno Ícaro desse a volta no inferno solar e fosse resgatado pelas naves vindas de Mercúrio.

... E foi o que aconteceu.

M.P.D

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