É a Cara do Pai!

É a Cara do Pai!

_Boa noite mãe, boa noite senhor Ricardo.
_Boa noite "bonequinho" , sonhe com os anjos.
_Boa noite meu rapaz.
Jim descia chateado as escadas que iam até o porão onde era seu quarto e laboratório. Sabia que não era por mal, mas era irritante que um cientista de 28 anos, com doutorado em física quântica pelo MIT e professor titular da maior Universidade do país, seja tratado como uma criança pela mãe e pelo vizinho. Talvez por não ter conhecido o pai, a mãe lhe tratava como um "bonequinho" até hoje. O senhor Ricardo era o vizinho desde antes dele nascer e era um grande amigo da família. Ele tornara quase um pai para Jim quando criança.
Assim que ele entrou em seu porão, trancou a porta. Respirou fundo e decidiu que seria hoje! Não esperaria mais nem um minuto.
Um grande vulto de 3 metros envolto em um cobertor vermelho estava imóvel no meio do porão. Sob aquele cobertor estava um experimento secreto em que ele trabalhava há vários meses. Decido a ir em frente com o plano, Jim vestiu as roupas velhas do seu pai que sua mãe havia guardado e depois retirou o cobertor de cima da "coisa". Assim que apertou um botão, luzes se acenderam e aquilo que estava no meio do porão se revelou uma mistura de "carrinho de montanha-russa com máquina de pipocas". Jim não resolveu esperar mais, entrou dentro do "carrinho" com um livro de H. G. Wells debaixo do braço, operou uma espécie de painel de controle e abaixou uma alavanca. Segundos depois, a estranha máquina havia desaparecido... com Jim dentro.
Jim estava meio tonto, olhou em volta e viu que ainda estava dentro do velho porão. Só que agora não lhe parecia tão velho. Saiu da máquina, deixando o livro dentro, e se dirigiu até as escadas. Ouviu vozes lá em cima, e as reconheceu como a voz de sua mãe do senhor Ricardo. Mas algo havia der estranho nas vozes, pareciam mais jovens. Jim pensou por um segundo e chegou a conclusão de que a máquina que havia criado funcionara. Deu beijo no livor "A Máquina do Tempo" de H. G. Wells e saiu pela pequena janela do porão. Viu que a vizinhaça não era muito diferente há 29 anos atrás e que sua casa só parecia um pouco mais nova. Ele se esgueirou pelo quintal e foi até a janela da cozinha e lá viu sua mãe e o senhor Ricardo conversando. Sua mãe era ainda mais bonita do que aquela que estava nos porta-retratos da sala e o senhor Rodriguez era uma belo homem, Jim teve a impressão de já ter visto aquele rosto jovem antes, mas desviou seus pensamentos para seu objetivo: Jim era obscecado em conhecer o pai.
Ele foi em até o bar da esquina. Sua mãe lhe dizia que seu pai gostava de jogar sinuca no bar todas as noites. Suas roupas eram bem parecidas com a da época, mostrando que havia calculado bem; ninguém notara sua presença. Jim procurou o pai com os olhos e reconheceu um homem sentado no fundo do balcão. Ele tinha dezenas de fotos do pai e não teve dúvida de que aquele homem que tinha mais ou menos a sua idade era ele.
Jim ficou sem saber o que dizer, ele sempre quis conhecer o pai, mas ele não tinha idéia do que dizer. Ele não poderia chegar e dizer: "Olá papai! Sou o seu filho que você nunca conheceu e que voltou do futuro para lhe conhecer". Jim resolveu se aproximar e deixou pra pensar na hora.
_O quê você que? Você é alguém da polícia? Será que um homem não pode mais beber em paz? Disse o homem.
O cientista ficou sem saber o que dizer ao perceber que seu pai estava completamente bêbado.
_Não pap... errr... Não sou policial. Só quero saber se posso sentar aqui. Disse Jim com a voz trêmula.
_E porque não? Esse é um país livre não? Disse o pai.
_Sim, é mesmo... Hã... você á casado com a Dona Pamela? Perguntou tentado puxar conversa.
_Sim! Sou, porque? O homem estava encarando o estranho agora.
_Hã.. nada não...
Jim notou que havia falado demais. O homem estava muito desconfiado e começou a se levantar.
_Como você sabe que eu sou casado com ela? Quem é você? Eu te conheço? Disse o homem bêbado enquanto de levantava.
O cientista ficou sem saber o que fazer, ficou sem palavras e começou a gaguejar. Aquilo só deixou o homem mais nervoso.
_Eu conheço o seu vizinho, o senhor Ricardo!! Foi a única coisa que lhe veio à cabeça.
_O quê??? Você é amigo daquele calhorda??? Pois diga a ele que seu eu o encontrar na minha casa de novo, eu mato ele!! Ele, e você!!.
O viajante do tempo estava desesperado. Ele voltou 29 anos para conhecer o pai e acabou jurado de morte pelo mesmo. Jim esperava um homem sério, respeitado e reservado, não um bêbado fanfarrâo. Jim estava mortificado. Antes não tivesse vindo, pois gostava da imagem de herói que fizera do pai.
Tentou remediar.
_Desculpe, mas eu não quis deixá-lo nervoso. É que eu acabei de vir de lá e...
Jim nem acabou de falar, pois uma mão em forma de punho lhe atingiu o olho esquerdo atirando-o no chão. Quando percebeu, o homem estava saindo pela porta o bar gritando.
_Seu desgraçado!! Eu vou lhe ensinar a ficar dando em cima da minha mulher. Ricardo!! Eu vou te matar!!
Jim viu o que havia feito: seu pai estava indo pra casa para matar o bom senhor Ricardo. Jim se levantou e saiu atrás do pai. Mas a perseguição acabou na porta do bar. Ouviu uma freada forte e viu várias pessoas em volta de um ônibus no meio da rua. Jim lutou no meio da multidão que se aglomerava e viu uma cena chocante. O pai estirado no asfalto debaixo do ônibus ao lado de uma grande poça de sangue. Seu pai havia morrido bêbado na porta de um bar atropelado por um ônibus quando ia para casa matar o senhor Ricardo!!
Jim estava pensando na sua mãe que perdera o marido por causa do próprio filho, um filho que ele nem sequer conhe... epa!
Jim ficou horrorizado, ficou gelado!! O paradoxo mais conhecido da Viagem no Tempo estava acontecendo!
Se o próprio filho matou o pai antes de sua concepção, como é que ele nasceu? Se esse homem morto era o seu pai, como sua mãe ficaria gravída daí a um ano? Quem matou seu pai??
Jim não estava pensando direito, foi correndo até o quintal e entrou no porão pela janela. Entrou na máquina (jogou o livro fora) e puxou a alavanca.
O cientista se viu novamente no velho porão. Viu o cobertor vermelho no canto e reconheceu suas coisas. Jim saiu e lembrou que havia achado o livro de H. G. Wells quando pequeno no meio do porão quando criança. Mas isso não importava agora, ele ainda não entendera como ele poderia ter nascido se seu pai morrera antes de...
Jim escutou as vozes da sua mãe e do senhor Ricardo na cozinha e lembrou da cena dos dois jovens na cozinha há 29 anos atrás. Sua mãe era tão jovem e bonita... e o senhor Ricardo era... era... a sua cara!!!
M.P.P