
QUANDO AS ESTRELAS CAEM
O Velho Jonas, como era chamado por todos, seria um típico fazendeiro de 70 anos se não tivesse algumas características um tanto insólitas. Sempre viveu solitário, foi uma criança estranha, nunca foi de ter muitos amigos, na verdade nunca teve algum. Mas ele não se preocupava com isso, nunca fez questão de ter alguém por perto, não que ele fosse um misantropo ou uma pessoa arrogante, ele simplesmente gostava de ficar sozinho. Era quase uma lenda no lugar, as pessoas o chamavam de louco, mas nunca criou o menor problema em toda sua vida. O velho Jonas, apesar do que pensavam, era uma pessoa extremamente feliz.
A sua fazenda era o único lugar que ele conhecia, quase nunca a deixava, era a sua segunda paixão. Mas qual seria a primeira paixão de um anacoreta que passou sua vida interia sozinho numa fazenda? O amigo leitor jamais poderia imaginar, pois o bom senso nos diz que a principal paixão de um fazendeiro deveria ser algo entre sua plantação ou em assistir um jogo pela televisão tomando cerveja, nada mais errôneo. Era algo completamente inesperado para um fazendeiro, Jonas era apaixonado pelas ESTRELAS!
É claro que as estrelas sempre exerceram um fascínio em qualquer tipo de pessoa, em todo o mundo, durante milênios. Mas o caso de Jonas era diferente, ele passava horas e horas todas as noites contemplando as fiéis companheiras, era uma admiração inexplicável, era compulsiva. Jonas nunca deu importância nessas histórias de vida extraterrestre, discos voadores, contos fantásticos e outras coisas que ao seu ver, eram bobagens. Ele não perdia seu tempo pensando em coisas que para ele não tinha importância, pois Jonas sempre soube que as estrelas eram muito mais do que apenas luzes no céu, mas que não cabia ao ser humano tentar descobrir, pois sempre que respondiam uma pergunta, o ser humano encontrava outras duas. A sua paixão se limitava somente em observá-las, sabia o nome de cada estrela, cada constelação, cada planeta, sabia onde estariam em qualquer parte do ano, chegou até mesmo a dar nomes particulares para as "suas" estrelas. Elas eram velhas conhecidas.
Seria mais uma noite de vigília para Jonas, lá estava ele, sentado em sua cadeira de balanço, com um olhar fixo para cima, ficaria assim por horas se ...
Ele deveria estar delirando, pois conhecia todas as estrelas do céu de Outubro, mas algo estava errado, havia 4 pequenas luzes a mais naquele céu! A maioria da pessoas jamais notaria esse minúscula diferença, mas para Jonas era algo tão gritante que notou assim que olhou para o céu.
_Não é possível! Aquelas estrelas não deveriam estar alí!
O velho Jonas estava completamente estarrecido, não era nenhum planeta, nenhum cometa conhecido, não podia ser! Ficou olhando para aquelas pequenas luzes "excedentes" durante vários minutos, pensado no que poderia ser aquilo. As 4 luzes estavam perto da constelação de Cisne, no hemisfério norte. Eram um pouco mais brilhantes que as estrelas naquela constelação, tinha uma magnitude comparável a de Antares. Pensou em tudo o que fosse possível, até em satélites artificiais, mais descartou logo a idéia. A cada suposição que vinha a sua mente, mais intrigado e confuso ficava.
_ O que será isso?
Mas o velho Jonas não poderia imaginar que as surpresas estavam apenas começando. Enquanto Jonas tentava resolver o enigma das novas estrelas, seu peito deu um pulo ao perceber que as "novatas" estavam aumentando de magnitude, e que o brilho não latejava como deveria em virtude da atmosfera, elas já estavam maior que Sírio -que é a estrela de maior brilho vista da Terra- e, depois de alguns instantes, as estrelas começaram a descrever uma trajetória descendente em zigue-zague. A partir desse momento, Jonas teve certeza que aquelas luzes não eram estrelas!
Jonas se levantou de sua cadeira e começou a caminhar em direção ao campo, enquanto olhava hipnotizado para as luzes que pareciam descer e estavam quase do tamanho de uma bola de ping-poing. As luzes faziam revoluções para todos os lados deixando um rastro luminoso para trás, Jonas estava maravilhado com a beleza que as 4 pequenas luzes produziam, e notou que as pequenas luzes azuladas estavam a poucos metros dele, fazendo iluminar a área em volta do velho fazendeiro. Elas agora tinha um tamanho de bolas de vólei, começaram a circular o velho Jonas em grande velocidade. O velho Jonas soltava gargalhadas de alegria, olhava em volta tentando acompanhar os pequenos globos luminosos, Jonas se sentia uma criança que vai a primeira vez à um parque de diversões, não sabia para onde olhar, cambaleava com as pernas de tanto dar voltar sobre si mesmo. Jonas corria pelo campo com os braços abertos enquanto as luzes o acompananhavam. Nunca se divertiu tanto em sua vida. Deitou-se no campo e enquanto rolava e dava gritos de alegria, era cortejado pelas belas luzes. Só que Jonas era um homem velho, e a idade não permitia nenhum tipo de excesso, logo ficou deitado imóvel para recuperar o fôlego e encarou os globos que também estavam imóveis a poucos centímetros do chão, como se estivessem esperando por ele para continuar a brincadeira. Mas aos poucos, o velho Jonas começou a se sentir melancólico, pois só agora ele notara que estava muito cansado, passou a sua vida inteira trabalhando duro na fazenda, e já enfrentava alguns problemas sérios de saúde. Sentiu uma ponta no peito ao sentir que não demoraria muito para a sua hora. Ele olhava para os pequenos globos que se encontravam em volta dele, como se estivessem confortando o velho, Jonas sentiu vontade de estar jovem de novo, para poder fazer coisas que nunca fez, para correr,rir, olhar paras estrelas e gritar que estava vivo!!!!
Só que Jonas sabia que era só sonho, ele sabia que a humanidade estava presa à carne, ao corpo, e que o fim era inevitável. A vida humana era uma coisa tão insignificante se comparada com o resto do Cosmo, que começou a imaginar o que seriam aquelas pequenas luzes que estavam em volta dele. Seriam seres extraterrenos? Seriam espíritos? Demônios? Era esse a problema de humanidade, queria dar nomes e fórmulas para tudo, não é capaz de imaginar ou aceitar que exista algo além da sua compreensão. Jonas se perguntou se aquelas pequeninas luzes morriam, nasciam, será que tinha os mesmos sentimentos humanos? Será que tinham sentimentos? Jonas gostaria de ser uma daquelas luzes, para poder viajar por onde quissesse, pelo tempo que quissesse, do jeito que quisesse. Para Jonas, aquelas pequenas luzes teriam sido enviadas por sua "mães", as estrelas, para levar um velho conhecido para junto delas.
Jonas pensava em tudo isso enquanto as 4 esferas azuladas começavam a girar em volta dele, primeiro bem devagar, depois ficavam cada vez mais rápidas, estavam atingindo velocidades incríveis, até formarem um grande anel em torno de velho fazendeiro. O velho Jonas sentia algo dentro do peito, não era dor, era uma sensação de leveza, de êxtase, nunca sentiu nada parecido, e parecia aumentar à medida que as esferas aumentavam a velocidade. Jonas se sentia como se estivesse se livrando de um peso, estava cada vez mais leve...
Jonas, em um único espasmo que durou menos que um bilionésimo de segundo, sentiu uma ternura ao ver o seu antigo lar em que ele morou durante sua estada na Terra, o receptáculo de carbono que os humanos chamam de corpo, deitado no meio da plantação, completamente inerte. O Corpo do velho Jonas ficava cada vez menor de onde estavam, pois 5 pequenas luzes azuladas seguiam em direção às Estrelas.
M.P.D.