Série Clássicos Necrose

SETE MINUTOS

Um agonizante saxofone quebrava a monotonia de uma estação de "condutores urbanos" às duas da madrugada. Este som que saia de algum ponto perdido na imensidão da estação só era interrompido pelo silvo de um "condutor" e seus solitários passageiros que eventualmente passavam. Max estava sentado em um banco, nesta estação, de madrugada, ouvindo o soul e a noite (era a única coisa que fazia além do trabalho). Era uma noite típica da sua cidade, a temperatura não passava dos 11º C, uma chuva fina que nunca acabava e ruas praticamente desertas; um silêncio quase mórbido, que Max adorava. Ele ficava na estação toda noite, apenas sentado e ouvindo, nunca fora antes abordado, cada um cuidava de si (não estavam acostumados a conversar com alguém que não fosse por meio de um monitor).
Durante o dia, Max trabalhava em uma Central de Comunicações, era responsável por toda comunicação Digital da Zona Sul e Leste. Trabalhava em casa, na frente de seus 3 monitores, seus processadores e mais uma infinidade de periféricos. Sua jornada de 12 horas diárias não o cansava, ele nem notava (ele amava o trabalho?! - ele nem ligava), ele era o melhor "servidor" da Central.
Todos os dias eram iguais, mas nessa noite acontecera algo que realmente mexera com Max ( nada o havia mexido antes). Uma mensagem, um texto, um mail fora enviado por alguém, que além de não deixar "rastros", travara completamente o equipamento de Max, evitando qualquer tentativa de acesso, deixando o equipamento desconectado por 15 minutos e 34 segundos (esse "navegante invasor" era dos bons mesmo!!!). Durante os 15 minutos Max mantivera-se impassível, apenas esperando, com uma paciência e conformidade normal dos dias de hoje.
Passado os 15' 34", Max pode "ver" o que acontecera, seu equipamento fora invadido por alguém que o deixara completamente isolado da Net, e durante esses minutos, o equipamento registrou 10 tentativas de acesso, duas tentativas foram feitas por Max. _Quem teria feito as outras 8 tentativas? Alguém estava perseguindo o "navegante"? Quem eram essas pessoas? Que mensagem é essa? A mensagem...
Ele se lembrara da tal mensagem que dera origem à essa caçada de gato e rato no seu quintal. Max, então, leu a mensagem: " Hoje, ao meio dia, o Governo da Coalizão Ocidental, declarou rendição incondicional ao Governo Chinês. Exatos 7 minutos depois da 3º Guerra Mundial ter começado, tempo suficiente para um batalhão de "virus", agindo em conjunto, destruírem o Sistema de Defesa Ocidental e o Sistema Bancário ter mudado de dono. Todas as defesas entraram em colapso e. .."
No primeiro instante, um levantar de sobrancelhas fora a única expressão que saíra de Max, logo alguns segundos de meditação e finalmente um suspiro. Desligou o equipamento e foi para estação, sem emitir um som sequer ( nunca fora barulhento mesmo).
_Seria verdade a tal mensagem? - apenas pensava -
Sua vida sempre fora muito normal, estudou, formou-se e agora trabalha em casa como quase todo mundo; quase nunca sai, nunca vira o mar, nem um rio ("aquilo" ao norte da cidade não poderia ser chamado de rio); os únicos animais que vira "ao vivo", foram os pombos, gatos, ratos e insetos (não sabia o que era um cágado). Entrara na lista de Controle de Natalidade e fora submetido à uma vasectomia aos 4 anos de idade em troca de um "incentivo" governamental (seu pai bebera todo o "insentivo"). A morte era só menos um cliente em seu banco de usuários, nunca conhecera alguém que morrera (nunca conhecera ninguém).
_O que o serviço de limpeza fazia com o corpo? Enterrar é que não iriam...
_O que significa aquela mensagem? Sete minutos..., 3º Guerra..., rendição... Porquê 3º Guerra? Houvera outras duas? A da "Bomba Atômica" seria uma daquelas?! Puxa, essa era a Guerra de hoje em dia?! Apenas Sete Minutos?!?!?!
_ O mundo estivera em Guerra e ninguém ficara sabendo... A mensagem poderia ser falsa... E daí?! Poderia ser perfeitamente possível!! O mundo estava dentro de um HD e era visto por um monitor, por quê não?! Talvez um rapaz de 17 anos tenha vencido a Guerra...
Muito antes de nascer, o mundo já havia optado pelos cabos, fios e antenas. Ondas e impulsos mantinham tudo e todos em contacto. Finalmente o homem aprendera a viver em sociedade; todos em suas casas, cuidando de suas próprias vidas. Nomes eram quase inúteis, os e-mails eram mais práticos, Max já era o suficiente. Max tinha 29 e não fizera nada na sua vida, nada além do trabalho. Só conhecia o mundo pelo monitor.
_ Sete minutos?!?
Ele se sentia do tamanho de um pixel; nunca soube o que era "ego", mas agora parecia que o seu tinha sido "deletado". Se sentia parte de um Sistema de Bytes, e não parte da humanidade (humanidade?!?).
_ Como era o mundo antes? Melhor? Pior? Feliz? Violento? Humano?
Max não sabia, ele não sabia de nada, nunca soube.
Estava sentado no banco da estação, pensando (era uma raridade alguém usar um instrumento como o saxofone hoje em dia, praticamente só existiam os teclados). Pelo menos ainda existiam as pessoas que moravam nas ruas, ou melhor, os "sem monitores". Um sorriso apareceu em seu rosto, ele estava com inveja das pessoas das ruas?! Mas estava cansado do nada, sempre achara que ficaria velho trabalhando na mesma coisa e que ficaria feliz assim. Max estava com frio, muito frio, estava cansado do frio, cansado do frio do monitor.
... e foi para casa e começou uma outra Guerra.
M.P.D.