O Alpinista Azul
Pode parecer pouco, mas 200 metros se parecem com 2 quilômetros quando se está sozinho escalando uma montanha traiçoeira, íngreme, com temperaturas baixíssimas e com o ar extremamente rarefeito.
Moisés estava numa situação em que não podia vacilar. Estava apenas a 2 horas de subida até topo e não tinha como voltar até o acampamento antes do anoitecer. Ele sabia muito bem que seria morte na certa se fosse apanhado pela noite em pleno paredão de gelo. Só tinha uma opção: tinha que juntar todas as sua forças ao limite das cãibras e chegar até o topo, senão morreria como um peixe preso num anzol a 7 mil metros de altura.
Respirou fundo no tambor de oxigênio e recomeçou a subida. As horas foram se passando e quase no final da escalada, sua máscara anti-gelo estava muito suja de neve e terra e mal se podia ver 100 metros a frente com nitidez. Mas no meio da imensidão branca e imóvel, Moisés pode notar uma mancha azulada no alto do pico parecida com um homem. Moisés ficou imóvel por um minuto tentando definir melhor a imagem. Sem dúvida era um homem no alto da montanha e ele usava uma roupa de alpinismo da mesma cor que a dele. Como será que não encontrou com aquele homem nos acampamentos que existiam em vários pontos da montanha? Dezenas de alpinistas vêem de todos os cantos do mundo ao Himalaia no verão para se aventurarem na montanha e sempre são conhecidos ou ficam amigos nos acampamentos. Mas ele não lembrava de nenhum alpinista que estivesse a sua frente neste verão. Quem seria aquele homem?
Quando Moisés voltou a olhar para o topo, o homem estava andando com as mãos na cabeça de um lado para o outro sem nenhuma proteção. Moisés temeu pela vida do alpinista azul que andava tão displicentemente na beirada do paredão. Ele ficou aflito temendo o pior e conseguiu acelerar a subida. Mas isso pareceu piorar a situação pois o homem começou a gritar algo que Moisés não pôde
definir o que era já que a máscara anti-gelo estava sobre
sua boca. A cólera do homem era tão forte que para desespero
de Moisés, o homem pisou em falso e caiu deslizando pelo paredão
sul da montanha. Moisés olhava aterrorizado a cena do homem rolando montanha abaixo até que o branco da neve voltasse a engolir o azul de seu traje. Era a primeira vez que via alguém morrer na sua frente e sentiu-se muito mal. O alpinista ficou gelado e sentiu um inexplicável sentimento de perda quando viu o companheiro de esporte se perder na neve. Se sentindo ainda mais cansado, teve medo de ter o mesmo final do homem e rezou um pouco pela alma do pobre infeliz antes de continuar a sua subida.
Pouco mais de alguns minutos, o jovem alpinista finalmente chegou até um platô mais largo a poucos metros do topo. Começou a tirar seus equipamentos e fez anotações no seu "diário de bordo". Tomou um pouco de soro e começou a armar o acampamento. Depois de tudo arrumado, Moisés percebeu que estava no mesmo local de onde o homem caíra. Mais relaxado, olhou a sua volta e percebeu uma pequena fenda no gelo. Se aproximou e percebeu que se tratava de um buraco bem fundo e que vinha um ruído estravo do fundo. Movido pela curiosidade e acompanhado de uma poderosa lanterna, não pestanejou e forçou o seu grande corpo pelo buraco. Alguns metros de descida acentuada, percebeu que o túnel acabaria numa câmara interna. O alpinista ficou mais intrigado ainda e seguiu em frente. Terminou numa caverna de teto abobadado com uns 2 metros de diâmetro. Ficou espantado com aquilo, mas o que realmente o assustou, foi uma peça oval preta e lisa de aproximadamente 1 metro que jazia no meio da caverna e que emitia um zumbido que não era alto mas era perfeitamente audível. Será que aquilo era algum aparelho meteorológico deixado ali por alguma equipe de cientistas? Por mais que vasculhasse em sua memória, não conseguia se lembrar de nada parecido com aquilo. Parecia um ovo gigante liso e negro sem brilho algum. Moisés tirou a luva e tocou no ovo. Assim que foi tocado, o tisno ovo sem brilho foi substituído por um festival pulsante de luzes multicoloridas em forma de pequeninos paralelepípedos em toda superfície do ovo. Em reflexo, Moisés retraiu a mão e ficou olhando completamente pasmo para aquilo. A câmara de gelo ficara completamente colorida ao refletir aquelas pequeninas luzes coloridas que vinham do ovo. Era um espetáculo lindo e aterrorizante ao mesmo tempo. Moisés era um rapaz culto e bem informado e alguma coisa no seu âmago dizia que aquilo não era terráqueo. Parecia loucura pensar nisso, mas era o que seu espírito sentia e não podia negar. Ficou olhando aquilo até que as luzes parassem de piscar e ficassem imóveis num padrão aparentemente caótico. Moisés repetiu o gesto e tocou com a mão nua em um outro ponto do ovo. As luzes voltaram a piscar pelo mesmo espaço de tempo anterior e param em outra disposição, aparentemente ao acaso também.
Moisés sentou um pouco e ficou fitando o objeto por vários minutos tentando imaginar o que isso teria a ver com o homem de azul que caíra no precipício logo de sua chegada. Sem ter o que pensar, resolveu sair do buraco e ir registrar o achado em seu "diário de bordo" e se preparar para dormir em sua barraca.
Quando saiu da fenda, Moisés sentiu que algo terrível estava para acontecer, pois todo o seu acampamento havia desaparecido. Um sentimento de pânico tomou conta dele e ficou a andar por todos os lados sem saber o que poderia ter acontecido. Imaginou o que seria dele agora sem seu equipamento e como ele faria para voltar à civilização. Estava perdido e sozinho no teto do mundo sem nada, apenas com seu traje azul de alpinismo. Colocou a cabeça nas mão e andando de um lado para o outro, olhou para baixo na esperança de ver seu equipamento descendo pela encosta. Mas o que ele viu foi mais aterrorizante ainda. Viu um homem com equipamento de alpinismo parado à alguns metros abaixo olhando para ele. Moisés olhou para a figura de traje azul e percebeu que aquele homem que estava subindo o paredão não lhe era estranho! Percebendo que o homem recomeçara a subir a montanha, em um acesso de desespero, Moisés deu um grito de horror e correu em direção ao buraco, mas escorregou em um pedaço de gelo solto e começou a rolar montanha abaixo.
Moisés olhava aterrorizado a cena do homem rolando montanha abaixo até que o branco da neve voltasse a engolir o azul de seu traje...
M.P.D.
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