

Sam morava no alto da montanha. Ele ainda era um bebe quando chegou até a beirada e viu a pequena cidade no meio do vale. Ele observava curioso aqueles pequenos prédios que a cada dia aumentavam de tamanho e iam em direção aos céus. Os homens da fazenda de Sam eram muitos parecidos com os homens da cidade. Com exceção das roupas e dos calhambeques (ouvira esse nome uma vez), a vida na cidade ainda era parecida com a vida no alto da montanha.
Mas o tempo foi passando, Sam já estava mais velho, e a cidade crescera muito mais do que ele. Agora havia muito mais prédios altos e os calhambeques agora eram mais rápidos e menos barulhentos. Os homens da cidade não iam mais a fazenda. A medida que a cidade aumentava, a fazenda diminuía. O Vale já estava quase todo tomado e a cada dia ficava mais difícil para Sam ver o rio que cortava a cidade. Havia agora também calhambeques no céu. Esses eram bem mais rápidos a pareciam um trovão quando passavam por sobre a montanha dele. Muitos homens da fazenda tinha ido morar na cidade e a cada dia a cidade ficava mais e mais cheia de gente e barulhenta. Sam não entendia bem o motivo, mas aquela cidade lhe dava medo.
Os anos foram passando e Sam acompanhava com uma certa angústia aquela mancha cinzenta crescente naquilo que um dia fora um vale verde e bonito. Sam bebia a água do córrego que logo viraria o rio que formaria o vale lá embaixo... Ele se perguntava se aquela água limpa fresca do alto da montanha continuaria assim depois que passasse pela cidade. A fazenda em que Sam morava havia sido abandonada pelos homens há muitos anos. Poucos iam até lá em cima, e apesar dele sempre ter gostado de visitas, ele não gostava dos homens da Cidade na sua Montanha.
A Montanha de Sam já não era mais a mesma. As árvores não eram mais fortes e bonitas e as verduras que Sam adorava estavam mais escuras e com um gosto de metal. Vários animais e pássaros que faziam companhia à ele haviam sumido e os poucos que ainda moravam na Montanha quase não apareciam mais. Sam não sabia o motivo, mas tinha certeza que aquilo seria culpa da Cidade dos Homens do Vale.
Agora já estava velho, muito velho. A Cidade continuava a crescer para os lados e para cima. O vale que Sam havia conhecido quando bebe já não existira mais. Sam não via mais a cidade do alto da Montanha porque uma nuvem cor de chumbo havia se formado sobre ela há vários anos. Ele só podia ouvir os barulhos da cidade e cada dia que passava, a cidade ficava mais e mais barulhenta. Sam não era inteligente, sabia disso. Para Sam os homens da Cidade é que eram "espertos". Eles faziam coisas que Sam nem sequer podia imaginar. Os homens da Cidade eram mágicos. Para ele, os homens da Cidade faziam coisas que só Deus faria.
Sam se achava muito burro mas não entendia porque os homens preferiam morar amontoados uns sobre os outros no meio
da fumaça e do barulho... Sam era apenas uma velha tartaruga com
seus trezentos anos e não entendia essas coisas dos homens.