Um Salto no Escuro

UM SALTO NO ESCURO


O descuidado Dr. Mulder se perdera dos outros quando ficou parado olhando para alguma construção curiosa. Ele já havia se perdido dos companheiros antes, mas dessa vez, fazia umas 3 horas que andava pela Cidade à procura deles. Dr. Mulder era o mais brilhante Xenobiólogo da atualidade e, quando fora convidado para fazer parte da expedição, não pensou duas vezes. Estava cansado de estudar "micróbios espaciais". A vida fora da Terra já era conhecida há 90 anos, mas essa era a primeira confirmação de vida inteligente, mesmo que essa parecia estar extinta.

O Capitão já o havia censurado por essa falta. Estavam em um planeta recém descoberto, faziam parte da segunda equipe de reconhecimento (a outra nem chegara a pousar). A única coisa que sabiam do novo planeta era que além de muito frio (- 50º C de média), tinha uma espessa camada atmosférica que impedia a entrada dos raios de um Sol como o nosso, ficava a cerca de 50 parcecs da Terra e fazia parte de um Sistema Solar com apenas uma estrela, morta, quase uma anã branca. O Planeta fora batizado com o nome de "Aurora". A descoberta de Aurora fora uma injeção de ânimo na desacreditada Força de Exploração Espacial (dava poucos votos). Uma das respostas que esperavam responder era como uma raça conseguiu construir uma civilização em um planeta desprovido de um Sol, sob uma temperatura tão severa. E também o por que desaparecera. Será que uma morte "repentina" do Sol havia condenado a vida no planeta? Será que eles ficaram e esperaram a morte chegar?

Dr. Mulder levava apenas uma lanterna, uma escuridão quase que total era imposta por um céu sem estrelas. Enquanto andava pelas gigantescas construções daquela que talvez fora um dia a Capital de Aurora, o explorador continuava sua procura por seus companheiros. O traje que usava atrapalhava um pouco sua movimentação e audição, mas seria impossível sobreviver a uma temperatura tão baixa, além da completa falta de oxigênio (será que algum dia existiu?) e outros inconvenientes. O Planeta parecia morto há centenas de milhares de anos; pelas construções e artefatos observados por ele, os nativos seriam de uma altura média de 4 metros (seriam extremamente fortes, pois a gravidade era quase igual a da Terra), longos membros e pareciam ter alcançado um elevado nível de tecnologia, talvez compatível com a da Terra. Isso o intrigava.
_Se o Sol estava morrendo...por que será que eles não saíram do planeta? Não faz sentido! Nada indica que eles tentaram sair daqui... Enquanto pensava nisso, olhou mais uma vez para o céu, nada... Sem estrelas, completamente negro... De repente o Dr. Mulder começava a fazer seu trabalho:
_Talvez tenha sido isso!!! O seres humanos sempre tiveram um fascínio pelas estrelas. Desde os primórdios da nossa civilização o homem se pergunta o que seriam as estrelas, se elas seriam as almas dos seus antepassados, as chamas dos Deuses, furos no céu... Mesmo usando a razão ou a religião, o homem sempre quis saber sobre as estrelas, elas sempre estavam lá! Sempre! "Um dia o homem será capaz de ir até as estrelas e responder todas as perguntas..." Graças as estrelas, o homem sempre soube que existia outro mundo além daquele que nascera. A Terra era o berço da humanidade, mas todos os bebês crescem e...
_Mas os antigos habitantes de Aurora nunca viram as estrelas (a atmosfera tornava isso impossível), para eles não havia nada além daquele mundo, somente um breu no céu! Talvez por isso eles nunca sairiam do planeta, nunca construiriam foguetes, não havia nada lá fora! Não conseguiam imaginar que haveria um universo inteiro para ser explorado... Só a escuridão. Seria um Salto no Escuro! Talvez por isso eles apenas esperaram a morte do seu Sol, que mandava somente o suficiente de radiação para manter as formas de vida de Aurora. Eles somente esperaram o fim...

O Doutor, enquanto um Cientista, tentava se concentrar em seus pensamentos sobre os alienígenas, mas um receio começava a lhe incomodar. Estava dentro de um grande edifício (achou que lá de cima poderia fazer alguma espécie de sinal). Estava ficando exausto, pois os degraus eram bem mais altos que os dos humanos (outro indício da alta estatura dos antigos habitantes). Estaria completamente suado, se o traje não o protegesse. De repente escutou um grande barulho ao longe, pensou que fosse alguém procurando por ele. Mulder gritou...nenhuma resposta. Outro barulho, agora mais próximo, parecia uma porta sendo empurrada com força. Gritou de novo...nada, só o barulho que parecia aumentar, seguido de um barulho menor e contínuo.
_ Alguém está correndo em minha direção! De repente o Doutor ficou imobilizado, não eram os homens lhe procurando... era alguma coisa!! Mulder começara ouvir o som cada vez mais próximo e com algo que parecia uma respiração forçada, pensou ter visto dois pontos vermelhos no fundo do corredor. Tomado pelo pânico, Mulder deu as costas ao longo corredor e começou a correr com nunca em sua vida. O som parecia aumentar.
_Maldito Traje!! Não consigo correr direito!!
Ele corria sem olhar para onde, empurrava todas as portas que encontrava (rezava para que nenhuma estivesse trancada), trombava em tudo que havia no caminho (a escuridão vencia a guerra contra a lanterna que balançava vertiginosamente na mão do homem), tropeçou uma vez, sentiu o barulho mais perto. Quase morreu ao subir um lance de escadas. O barulho era nítido, algo grande corria atrás dele, e respirava! Parecia estar a poucos metros.
_Será que é um "deles"?? Que droga!! será que um ainda esta vivo?? Enquanto corria, pensava se seria possível algum estar vivo, ou se seria sua imaginação (não quis arriscar). Ele começara a perder as forças, as enormes escadas, as rampas, aquela corrida desesperada... Estava começando a perder as esperanças. Sentiu um toque em suas costas! A criatura ou seja lá o que for, estava quase lhe alcançando! A respiração estava quase em sua nuca! Mulder sentiu que estava correndo por um terraço, não conseguia mais ver as paredes e o teto, somente o chão. Enquanto corria, iluminou a sua frente. Percebeu que a "linha estava acabando", alguns metros à frente, notou que havia um parapeito, mas não conseguia ver nada além, apenas um abismo negro. Estava no fim, atrás dele o barulho parecia vir de dentro de sua cabeça e a sua frente só via uma queda livre, o escuro! Mulder corria em direção ao fim.
Sem pensar em nada, já se encontrava sobrevoando o parapeito! Reunira todas as suas forças numa atitude desesperada: dera um Salto no Escuro. Sob um perigo iminente e certo, ele não pestanejou, preferiu se jogar na escuridão a esperar o que iria acontecer!

Quando ele acordou, viu que estava no ambulatório da Nave, o médico e o Capitão estavam ao seu redor. Eles lhe contaram que fora encontrado desmaiado e com algumas fraturas pela a equipe de busca perto de onde se perdera. O médico lhe ordenou repouso enquanto saía do ambulatório levando consigo o Capitão. Ele chegou a conclusão de que aquele "ser" foi fruto de sua imaginação (será?). Esperou eles saírem, sorriu e disse para si mesmo:
_ Os Antigos Senhores de Aurora pereceram porque lhes faltavam algo que sobra em nós humanos: coragem e loucura. Para saltar de peito aberto no desconhecido.


M.P.D., baseado no conto de Jack McDevitt

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