Islamismo
A
Instituições e cultura 
          Lei islâmica. A Charia (literalmente, "o caminho do bebedouro"; por extensão, "o caminho que conduz a Deus"), ou lei islâmica, é expressão da vontade de Alá, a que os fiéis se entregam com total submissão. Difere do direito ocidental em dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, o campo de aplicação da lei islâmica estende-se não só às relações entre os indivíduos e a sociedade, como também às obrigações morais da consciência e às obrigações religiosas; em segundo lugar, a lei islâmica se considera expressão completa e acabada da vontade divina, à qual os homens se devem render em qualquer circunstância. As leis ocidentais, ao contrário, formam-se progressivamente segundo as exigências dos novos problemas surgidos da convivência social. 
          Formação histórica. O Alcorão contém apenas oitenta versos aproximadamente sobre temas estritamente legais. Por esse motivo, Maomé e seus sucessores imediatos viram-se obrigados, por meio da interpretação e expansão dos conceitos contidos no Alcorão, a resolver os problemas legais surgidos na comunidade. A dinastia omíada, no século VII, criou a figura do cádi, ou juiz, responsável pela interpretação e aplicação da lei, que absorveu elementos de culturas dos territórios conquistados. Um século mais tarde, a dinastia abássida examinou a prática legal à luz dos princípios contidos no Alcorão e deu início a uma jurisprudência islâmica definitiva. Ainda que algumas escolas sustentassem que, fora do prescrito no Alcorão, podia-se empregar a razão para resolver novos problemas, prevaleceu a tendência contrária: só é válido empregar a doutrina e as resoluções do profeta conservadas na tradição. As novas situações, portanto, devem ser resolvidas por analogia com as antigas. 
          As diversas seitas mantiveram versões próprias sobre a lei islâmica. A maioria dos estados islâmicos modernos conservou a Charia no direito privado, mas adotou os códigos ocidentais para o direito público. Alguns ainda aplicam penas de flagelação ou apedrejamento por adultério e a que prevê a amputação de uma mão por roubo. A Turquia aboliu totalmente a lei islâmica. 
          Família. A instituição familiar é patriarcal e o pai possui pleno poder para dispor sobre o matrimônio das filhas, mesmo as que sejam maiores de idade. O marido tem direito de manter simultaneamente até quatro esposas. Enquanto a mulher só pode pedir divórcio se apresentar causa justificada, o marido não precisa de motivo para se divorciar. 
          Estado. Como no Islã não se estabelece diferença entre as esferas religiosa e temporal, o estado é essencialmente religioso. A teoria política dos ortodoxos sunitas formou-se de acordo com as circunstâncias, o que os tornou cada vez mais conformistas e tolerantes com a injustiça. O primeiro passo nesse sentido foi a enunciação de lemas como "Um dia de anarquia é pior que trinta de tirania" ou "O poder é o direito". No entanto, o califa estava submetido à lei islâmica, o que impedia que se transformasse num absolutista. 
          Educação. No princípio, a educação concentrou-se na transmissão dos ensinamentos do Profeta e na reunião de seus ditos e feitos, o que deu origem à formação das ciências da tradição: hermenêutica, história e literatura. A divulgação das obras dos filósofos gregos trouxe, entre os séculos IX e XII da era cristã, o interesse pelas ciências profanas. 
          Temerosos com relação ao que poderia representar a formulação de questões teológicas pelas ciências e pela filosofia, os ortodoxos excluíram as ciências profanas do ensino oficial. Isso provocou empobrecimento intelectual, mas trouxe como vantagem a uniformidade e a coesão da comunidade muçulmana, apesar da diversidade de culturas com que o Islã conviveu. Nos estados islâmicos modernos, as ciências constituem objeto primordial dos programas de pesquisa. 
          Variedade de culturas. Durante o primeiro período da expansão conquistadora, os árabes impuseram sua língua e sua cultura. Num segundo período, predominou o espírito tolerante da palavra do Alcorão e respeitaram-se as culturas próprias, inclusive alguns ritos religiosos ou leis locais, em detrimento da sagrada lei islâmica. As correntes integristas dos séculos XIX e XX da era cristã reclamaram o retorno à pureza islâmica. 
          As manifestações artísticas foram igualmente determinadas pela religião. Na arquitetura, a construção principal foi a mesquita, símbolo da vontade divina. Na pintura, proibiu-se a representação de seres vivos para impedir que se tentasse rivalizar com Deus e evitar o perigo da idolatria. Essa proibição não foi rígida, no entanto, devido à influência persa e de outros povos. 
          A literatura sofreu igualmente a tensão entre as tendências liberais e ortodoxas. Cultivou-se sobretudo a poesia e a prosa não-narrativa. Ainda assim, a literatura de ficção se manifestou em coletâneas populares como As mil e uma noites. A partir do final do século XIX, os escritores islâmicos começaram a utilizar formas ocidentais até então inexistentes, como o teatro e o romance. Em todo o Islã moderno, é questão fundamental a manutenção das tradições unificadoras do mundo muçulmano adaptadas às novas condições políticas e sociais.
 
 
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