Composição e estrutura. Enquanto recebia a revelação,
Maomé a recitava aos discípulos, que a decoravam ou registravam
em fragmentos. A compilação do livro em seu estado atual
se deve ao terceiro califa (sucessor do profeta), Utman, que, temendo a
perda do texto devido à morte, em campanhas militares, de muitos
recitadores do Alcorão, mandou recolher as diversas cópias
e estabelecer a definitiva. Para evitar novas confusões, ordenou
a destruição de todas as demais versões, embora uma
ou outra se tenha salvo. As dificuldades para estabelecer o texto foram
agravadas pelo desenvolvimento ainda incipiente da escrita árabe
e pelas diferentes interpretações que os diversos recitadores
davam ao texto.
Conteúdo. Pela data provável em que Maomé recitou originalmente os capítulos e, sobretudo, em virtude dos temas tratados e do estilo, podem-se atribuir diversos períodos ao conteúdo do Alcorão, embora essa periodização não se reflita no texto. Um mesmo capítulo pode tratar de temas heterogêneos; outros incluem alguma revelação posterior sobre seu tema. Período de Meca. O primeiro período da pregação de Maomé, iniciado por volta do ano de 612 da era cristã, caracterizou-se por um enfático apelo à conversão e à obediência religiosa e moral, ante o iminente julgamento, que traria consigo o castigo dos pecadores -- especialmente dos ricos e poderosos -- e o prêmio aos justos, sob o poder absoluto e transcendente de Deus. Em geral, os textos estão escritos numa peculiar combinação de poesia e prosa, a chamada "prosa rimada", que durante vários séculos caiu em desuso por ser considerada herética a intenção de imitar o livro sagrado. Período de Medina. Depois de fugir de Meca em 622, a pregação de Maomé se fez ora contra aquela cidade, ora com o propósito de consolidar a organização dos crentes. As invectivas contra Meca reproduzem os temas da "pregação no deserto": o povo ofuscado pela riqueza recusa o Deus único, mata os profetas e, em seu endurecimento, é castigado por Deus. Quanto à organização dos crentes, num primeiro momento Maomé preparou a luta contra Meca. Posteriormente, subjugada a cidade (630), sua preocupação voltou-se para as prescrições jurídicas -- ritos, preces, casamentos, alimentação -- que haveriam de reger a vida religiosa, política, social e familiar da sociedade islâmica. Escritas em tom mais prosaico que as iniciais, as suratas desse período constituem o fundamento de todo o direito islâmico. Fontes. Os muçulmanos não questionam as fontes do Alcorão e o consideram uma obra literalmente revelada. Outros estudos críticos apontam três fontes principais: tradições árabes, crenças judaicas e relatos cristãos, estes últimos transmitidos pelo contato pessoal com mercadores de passagem ou radicados entre os árabes, e não por textos bíblicos ou pela doutrina oficial. Moisés e Jesus Cristo, para Maomé, revelaram a mensagem de Deus, mas seus povos a desvirtuaram. Deus se teria revelado a Maomé para confirmar, emendar ou substituir as revelações anteriores. Comentários e traduções. O texto do Alcorão
tem caráter sagrado, até mesmo na grafia, de modo que deve
ser recitado em árabe, mesmo quando o crente não entenda
essa língua. Os muçulmanos se opuseram sempre a traduções,
sobretudo para as línguas ocidentais. Até hoje exigem que,
se realizadas, sejam acompanhadas do texto em árabe. Foi esse o
caso, por exemplo, da edição trilíngüe, em castelhano,
latim e árabe, hoje perdida, feita pelo espanhol Juan de Segovia
na primeira metade do século XV. Os fiéis usam os textos,
artisticamente copiados, como relíquias ou amuletos.
Ensinamentos do Alcorão. A pregação de Maomé
se baseia num monoteísmo absoluto. Existe um só Deus, criador,
onipotente e misericordioso; um juízo final premiará os bons
e castigará os pecadores, na vida extraterrena. A criação
reflete o poder, a sabedoria e a autoridade de Deus, mas Deus é
totalmente distinto da criação, embora nela esteja intimamente
presente: "Mais próximo do homem que sua própria veia jugular."
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