MORTE E VIDA SEVERINA
Emília Amaral*
Contexto histórico cultural
Em 1945, com o fim da
Segunda Guerra Mundial, o otimismo tomou conta do mundo, e uma
nova etapa de desenvolvimento pacífico parecia se aproximar. Os
mais céticos, contudo, se lembravam da década de 20, após a
Primeira Guerra: as mesmas esperanças tinham surgido, desfeitas
pelo conflito de 1939. Assim, não se mostravam tão crédulos
quanto à duração da nova era de tranqüilidade que se
anunciava.
De fato, após a Segunda
Guerra, o cenário político do planeta se modificou. Duas potências
surgiram vitoriosas, os Estados Unidos e a União Soviética,
destronando do centro decisório antigos ocupantes, como:
Inglaterra e França, e aparecendo como os novos donos do mundo.
Representantes de regimes sociais e políticos antagônicos, o
Capitalismo e o Comunismo, passaram a disputar áreas de influência
pelo mundo inteiro. Essa disputa recebeu o nome de Guerra Fria.
As duas superpotências
se intrometiam nas lutas internas das regiões disputadas, como
Coréia e Vietnã, fornecendo armas a uma das facções, com
objetivos políticos. Com isso, essas regiões acabaram se
transformando em campos de teste para armas avançadas,
produzidas nos grandes centros tecnológicos.
Neste quadro geral, era
impossível para qualquer país sustentar uma posição de
neutralidade. A desobediência às regras da esfera de influência
americano-capitalista, ou russo-comunista levava a punições
severas no plano comercial, e mesmo à invasão pura e simples.
Esta polarização ideológica impedia o surgimento de qualquer
opção política aos modelos já estabelecidos.
Não era estranho ao
mundo a coexistência ameaçadora de nações fortes e inimigas.
Mas, naquele momento, um dado novo modificava os sentimentos que
essa coexistência provocava: a bomba atômica. Laçada pelos
americanos pela primeira vez no Japão em 1945, vitimando
milhares de pessoas, funcionou como um recado aos planos
expansionistas dos russos. Estes logo alcançaram a tecnologia
atômica e a guerra nuclear passou a ser uma ameaça bastante
palpável. Se acontecesse a terceira guerra mundial, o duvidoso
consolo que todos tinham era o de que certamente seria a última.
No plano internacional, o
ano de 1945 indicou uma nova era de esperanças, com o fim
da Segunda Guerra. Também no Brasil, este ano marcou o término
da ditadura de Vargas, abrindo perspectiva para um período
democrático na vida política nacional. O fato do presidente
eleito no ano seguinte ter sido Eurico Gaspar Dutra, que tinha
sido ministro do governo Vargas, mostrou que o ditador deposto não
estaria completamente ausente do cenário político.
Esta impressão se
comprovou quando, nas eleições seguintes Getúlio concorreu, e
ganhou. O ex-ditador voltava ao poder agora eleito
democraticamente. A classe média intelectualizada temia um novo
golpe de estado como o já penetrado por Vargas em 1937, e
alguns de seus setores passaram a criticar as atitudes dúbias
do presidente. A frustrada tentativa de assassinato do
jornalista Carlos Lacerda, que fazia oposição aberta ao
governo, acabou vitimando um major da Aeronáutica, e o governo
se viu na obrigação de apurar os fatos. Todos os indícios
levavam ao governo federal, e a pressão para uma renúncia
voltou a assombrar a carreira de Getúlio. Em agosto de 1954,
Vargas se suicidou.
Apesar do clima tenso que
sucedeu ao suicídio, a normalidade democrática acabou por se
instalar, e novas eleições foram convocadas. O presidente
eleito, Juscelino Kubitschek, apareceu como solução
modernizadora para o atraso brasileiro. Ele prometia realizar
obras de "cinqüenta anos em cinco" para acelerar o
nosso progresso. Um dos seus atos mais relevantes foi a transferência
da capital, do Rio de Janeiro para o interior do país, em Brasília,
cidade planejada e construída durante seu governo.
Sucedendo Juscelino,
assumiu a presidência Jânio Quadros, em 1961. Contudo,
depois de poucos meses de uma administração medíocre, ele
renunciou, por motivos até hoje obscuros. O vice-presidente João
Goulart não contava com o apoio das Forças Armadas. Os
militares acreditavam que Goulart entregaria o país ao
comunismo do qual era simpatizante e tentaram impedir-lhe a
posse. Firmou-se um acordo político que criou o
Parlamentarismo. Este foi desfeito pelo presidente, depois de um
plebiscito que indicou a insatisfação popular com o novo
modelo. As Forças Armadas passaram a arquitetar a deposição
do presidente, o que de fato aconteceu com o golpe de estado de
1964.
Durante a década de 50,
a arte brasileira se beneficiou do estado de relativa democracia
vivido pelo país. Pesquisas formais indicavam caminhos novos
para todos os setores artísticos. A literatura, a música, a
pintura, a arquitetura, o cinema, o teatro, passavam por momento
de renovação estilística. Essa renovação incluía a
vertente política da arte. A União Nacional dos Estudantes
(UNE) criou os Centros Populares de Cultura (CPC), que buscavam
formas de comunicação artística com as massas, realizando
apresentações de música e teatro em portas de fábricas e
sedes de ligas camponesas.
Em literatura, surgiu o
período denominado de terceiro tempo do Modernismo. Ele se
caracterizou por uma retomada das preocupações formais que
tinham marcado a primeira geração modernista. A palavra ganhou
importância, assumida como centro da expressão estética. A
reflexão em torno da arte (metalinguagem) alcançou níveis de
elaboração bastante altos, em virtude do clima de discussão
que se instalava no país.
O experimentalismo, isto
é, a busca de novas formas de elaboração da linguagem literária,
colocou a literatura brasileira em um patamar bastante
semelhante ao de outras nações do mundo. Na poesia, a chamada
"geração de 45" (grupo de poetas do terceiro tempo)
tentou aliar os avanços modernistas com uma tonalidade clássica.
A preocupação com os
destinos da sociedade perdeu o tom localista e regional que
tinha tido nas décadas de 30 e 40. A iminência de um conflito
nuclear que poderia dizimar a espécie humana fez com que todos
passassem a se preocupar com a humanidade como um todo. O
pessimismo dominou as concepções filosóficas do período. A
ficção se voltava cada vez mais para o interior do ser humano,
tentando encontrar ali a chave para a compreensão dos conflitos
sociais. João Cabral de Melo Neto foi o principal representante
da geração 45. Como outros poetas dessa época, apresentava
uma grande preocupação com a construção do poema e com sua
forma visual, insistindo na composição de métrica regular. No
entanto, ele se destacou pela qualidade de sua poesia.
Utilizando-se de uma expressão sintética, fugindo a qualquer
tipo de derramamento ou sentimentalidade, João Cabral conseguiu
à palavra poética a contundência da pedra. No poema dramático
Morte e vida severina, a dureza da expressão corresponde
formalmente às dificuldades e desalentos da história do
retirante que aperte em direção ao litoral em busca de vida, e
só encontra morte pelo caminho. O subtítulo do poema, auto de
natal pernambucano, confirma a esperança do título no advento
de uma nova vida, que represente a redenção do povo
nordestino.
Fernando Marcílio
Morte e Vida Severina -
Enredo
Publicada pela
primeira vez em 1954 e encenada com grande sucesso em inúmeros
palcos do Brasil e de outros países, esta obra, de João Cabral
de Melo Neto, estrutura-se na forma de auto, peça de origem
medieval e popular.
Além da grande
sonoridade provocada pela predominância de versos em redondilha
maior (verso de 7 sílabas poéticas, também pertencente à
tradição medieval) de rimas sem um esquema regular mas
constantes, de repetições de palavras e de versos inteiros.
Morte e vida severina prende a atenção do leitor-ouvinte por
combinar simplicidade e concentração, fortes imagens visuais e
auditivas com uma linguagem muito próxima do registro oral.
Nela, o autor tematiza o
itinerário do retirante nordestino, que parte do sertão
paraibano em direção ao litoral, em busca de sobrevivência,
devido à seca e às precárias se não insustentáveis condições
de vida, para a esmagadora maioria da população.
A obra possui 18 trechos
ao longo dos quais Severino, o retirante, primeiro apresenta-se
ao leitor para em seguida ir relatando, com o auxílio de outras
vozes, outros personagens encontrados na travessia, as etapas de
que ela se compõe até chegar no Recife, onde o rio se encontra
com o mar... Ora dialogando individualmente com ele, ora
funcionando como um coro, tais vozes dão mobilidade aos trechos
e ressoam de modo a contagiar os que seguem as pegadas do
protagonista, explicitadas por títulos que resumem os seus
movimentos principais, de forma semelhante às titulações dos
capítulos dos romances medievais.
Para facilitar o
entendimento do enredo de Morte e vida severina, vamos dividi-lo
em duas partes: a primeira compreendendo dos trechos 1 ao 9, e
que consiste na viagem da Paraíba ao Recife; e a segunda
compreendendo dos trechos 10 ao 18, nos quais aparecem as experiências
vividas pelo retirante na cidade grande.
1ª Parte - Do interior
da Paraíba ao Recife: a busca da vida x a sucessão de mortes.
Antes de narrar a história
de sua vida, Severino, cujo nome de próprio se tornou comum
(elemento que estudaremos na seção Personagens), identifica-se
ao leitor no trecho 1 - "O retirante explica ao leitor quem
é e a que vai" - como personificação de um tipo humano e
brasileiro: o oprimido socialmente, o retirante cuja vida é
determinada pelas desigualdades econômicas que se mantêm
irreparáveis.
Mas para que me
conheçam
melhor Vossas
Senhorias
e melhor possam seguir
a história de
minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença
emigra
Nas etapas desta
emigração o que vemos através de seus sonhos, é sempre a
morte interrompendo a vida.
No 2º trecho,
por exemplo, intitulado Encontra dois homens carregando um
defunto numa rede, aos gritos de: ó irmãos das almas! Irmãos
das almas! Não fui eu que matei não', há um diálogo entre o
Severino-retirante e os carregadores daquele corpo, o corpo do
Severino-lavrador.
Aqui se alternam
quartetos de versos com 7 e 4 sílabas poéticas, e se repetem
no 2º verso de cada quarteto as expressões "irmãos das
almas" (quando a fala é de Severino) e "irmão das
almas" (quando a fala é dos carregadores do corpo),
formando uma espécie de refrão, de ladainha, de coro, que
fortalecem a dramaticidade e o lirismo de muitas partes do
texto.
O diálogo nos informa
que Severino-lavrador morreu "de morte matada",
assassinado à bala, numa emboscada, por "Ter uns hectares
de terra.../ de pedra e areia lavada / que cultivava". Às
perguntas de Severino-retirante sobre quem o emboscou e que roças
"ele podia plantar / na pedra avara", e também sobre
o por que o fizeram as respostas são: "- Ali é difícil
dizer / irmão das almas. / Sempre há uma bala voando /
desocupada", "- Nos magros lábios de areia, irmão
das almas, dos intervalos das pedras, / plantava palha" e
"- Queria mais espalhar-se / irmão das almas, / queria
voar mais livre / essa ave-bala". Vemos assim, as imagens
da "ave-bala" e dos "magro lábios de
areia", tanto a impunidade do crime quanto a estreiteza do
pedaço de terra que o deflagra:
"- Tinha somente dez
quadras, / irmão das almas, / todas nos ombros da serra,
"nenhuma várzea"...
Severino retirante se
oferece para ajudar a levar o morto, o que permite que m dos
condutores possa voltar para casa. Uma fala final deste trecho
exemplifica a ironia com que é retratada a morte, de forma
crescente à medida que aumenta o número de cadáveres: "-
Mais sorte tem o defunto, / irmãos das almas, / pois já não
fará na volta / a caminhada".
No 3º trecho -
O retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio
Capibaribe, cortou com o verão - as imagens das vilas e cidades
por onde Severino-retirante vai passar com um rosário, e da
estrada como uma linha, enriquecem-se com a imagem do
Capibaribe. O rio-guia, identificado como o homem do nordeste,
tem uma sina a cumprir, mas no verão a seca o interrompe, e ele
se transforma em "pernas que não caminham...
Entretanto, o som de uma
categoria orienta o viajante, que encontra, ao segui-la, o
segundo defunto - trecho 4; Na casa a que o retirante
chega estão cantando as excelências para um defunto, enquanto
um homem, ao lado de fora, vai parodiando as palavras dos
cantadores. Nos trechos 5 e 6, e nos trechos 7 e 8, mais duas
interrupções ocorrem na travessia do retirante. A primeira
(referente aos trechos 5 - Cansado da viagem, o retirante
pensa em interrompê-la por uns instantes e procurar trabalho
onde se encontra e 6 - Dirige-se à mulher na janela que
depois descobre tratar-se de quem se saberá) decorre do cansaço
de Severino. Perante a sucessão de mortes que testemunha
vontade de, como o rio, "interromper sua linha",
permanecer onde está. Vê, então, uma mulher na janela que lhe
parece "remediada" e resolve perguntar-lhe por
trabalho. O diálogo entre o protagonista e a mulher faz com que
primeiro, respondendo às perguntas dela, enumere os ofícios
que já teve (lavrador, vaqueiro, moedor de cana em engenhos,
"suportar o sol" e, "havendo ou não (trabalho)
trabalhar"), enquanto a mulher indaga se sabe
"benditos rezar, cantar excelências, defuntos
encomendar..." Trata-se de uma encomendadora de mortos, que
"se soubesse rezar ou mesmo cantar" lhe proporia
sociedade, "que a freguesia bem dá".
O diálogo então se
inverte, Severino quer saber "como a senhora, comadre, pode
manter seu lar" e ela, rezadora titular de toda a região,
responde-lhe: "- Como aqui a morte é tanta, / só é possível
trabalhar / nessas profissões que fazem / da morte ofício ou
bazar'. Enumera por sua vez os "profissionais da
morte" - farmacêuticos, coveiros, "doutor de anel no
anular"- denominado-os "retirantes às avessas",
isto é, pessoas que sobem do mar para o sertão e cultivam os
"roçados da morte", os quais ironicamente "nem
é preciso esperar / pela colheita: recebe-se na hora mesma de
semear.."
Nos trechos 7 -
o retirante chega à zona da mata, que o faz pensar, outra vez,
em interromper a viagem e 8 - Assiste ao enterro de um
trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o
levam ao cemitério - a chegada a uma terra "mais fácil,
doce e rica" enche de esperanças o coração do retirante.
Mas, em vez de gente ele
vê apenas, numa várzea, um bangüê velho em ruína, o que o
leva a conclusões apressadas: "Por onde andará a gente /
que tantas canas cultiva? / Feriando: que nesta terra / tão fácil,
tão doce e rica, / não é preciso trabalhar / todas as horas
do dia, / os dias todos do mês, / os meses todos da
vida..."
Tais conclusões são
desmentidas no trecho 8, um dos mais conhecidos do texto,
no qual o coro dos amigos do morto é uma forma de condenar,
agora mais concentradamente, o que já vinha sendo denunciado
desde o início; a desigualdade social, o extremo desamparo dos
pobres perante o latifúndio, o coronelismo, as grandes
oligarquias.
Os versos dirigem-se ao
morto, cuja cova "é a parte que te cabe / neste latifúndio,
é a terra que querias / ver dividida", é onde "estarás
mais ancho / que estavas no mundo", é onde "mais que
no mundo / te sentirás largo..."
Assim, o trabalho
exercido com justiça e dignidade associa-se com a terra de que,
"além de senhor / será homem de eito e trator (...). Serás
semente, adubo, colheita" numa terra que "Também te
abriga e te veste: / embora com o brim do nordeste".
Esta enumeração de
imagens acaba por identificar o homem morto com a terra onde
deveria trabalhar, de onde precisaria tirar o seu sustento, mas
que agora... "- Se abre o caixão e te abriga, / lençol
que não tiveste em vida; - Se abre o chão e te fecha, /
dando-te agora cama e coberta; / - Se abre o chão e te envolve
/ como mulher com quem se dorme".
No trecho 9 - o
retirante resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife
- novamente Severino fala com o leitor, por um lado afirmando não
ter sentido diferença "entre o Agreste e a Caatinga, e
entre a Caatinga e aqui a Mata" e, por outro, lado
identificando-se mais com o rio ("vive a fugir de remansos,
/ a que a paisagem o convida, / com medo de se deter, / grande
que seja a fadiga"), chegar logo "ao fim dessa
ladainha", ao Recife, "derradeira ave-maria do rosário,
derradeira invocação da ladainha, / Recife, onde o rio some /
e essa minha viagem se finda..."
2ª Parte
O retirante na cidade
grande: a sucessão de mortes x a explosão da vida.
A partir do trecho 10 -
Chegando ao Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé
de um muro alto e caiado e ouve, sem ser notado, a conversa de
dois coveiros - Severino inicia seu trabalho pela cidade grande.
Dois coveiros - um do
bairro de Casa Amarela e outro do bairro de Santo Amaro -
conversam, o primeiro querendo deixar seu cemitério, cujo vaivém
de mortos compara com " paradas de ônibus, com filas de
mais de cem", e o segundo comparando o setor do cemitério
onde trabalha com "a estação de trens: diversas vezes por
dia chega o comboio de alguém".
Enquanto isso, afirma o
coveiro de Santo Amaro, "As avenidas do centro / onde
se enterram os ricos, / são como porto do mar: / não é ali
muito serviço: no máximo um transatlântico / chega ali cada
dia / com muita pompa, protocolo / e ainda mais
cenografia". A estes bairros (dentro do cemitério) de
usineiros, políticos, banqueiros, industriais, etc, contrapõem-se,
continua o coveiro de Santo Amaro, os bairros dos funcionários,
dos jornalistas, dos escritores, dos artistas, dos bancários,
etc,...
O coveiro de Casa Amarela
reconhece um bairro dessa gente no cemitério do qual quer sair;
"Raras as letras douradas, / raras também as
gorjetas", e conta ao amigo que conseguiu do administrador
mudar de bairro, não de cemitério.
Então, o interlocutor
comenta: "Passas para o dos operários, / deixas o dos
pobres vários; / melhor, não são tão contagiosos, / e são
muito menos numerosos".
A conversa prossegue com
ambos os coveiros falando dos indigentes, "da gente
retirante / que vem do sertão tão longe... Não podem
continuar, / pois tem pela frente o mar. / Não tem onde
trabalhar / e muito menos onde morar... essa gente do sertão /
que desce para o litoral, sem razão, fica vivendo no meio da
lama, / comendo os siris que apanha; / Pois, bem: quando sua
morte chega / temos que enterrá-los em terra seca..."e com
a sugestão de que morressem no rio, facilitando o trabalho
deles. Enfim, a conclusão a que chegam é de que o erro dos
sertanejos é virem seguindo "seu próprio enterro".
Severino, após ouvir
tais palavras, aprende que "nessa viagem que eu fazia, /
sem saber desde o Sertão, / meu próprio enterro eu
seguia..." e encontra como solução apressar a própria
morte, como o coveiro a descrevera / jogar-se no Capibaribe
"que rio, aqui no Recife, / não seca, vai toda
vida..."(trecho 11 - o retirante aproxima-se de um
dos cais do Capibaribe).
Do trecho 12 ao 13 ocorre
o encontro de Severino com Seu José, um mestre carpina que
defende a vida, "mesmo que em retalhos, a vida de cada dia,
que cada dia deve ser conquistada". Após o trecho 12
(Aproxima-se do retirante um morador de um dos mocambos que
existem entre o cais e a água do rio) há a notícia do
nascimento de uma criança, filha do carpinteiro (trecho 13 -
Uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o
que se verá), e, no trecho 14 (Aparecem e se aproximam
da casa do homem vizinhos, amigos, duas ciganas, etc), 15
(Começam a chegar pessoas trazendo presentes para o recém
nascido), 16 (Falam as duas ciganas que tinham aparecido
com os vizinhos) e 17 (Falam os vizinhos, amigos, pessoas
que vieram com presentes, etc) a celebração do evento
transcorre.
Os presentes humildes dos
amigos, os prognósticos das ciganas vindas dos
"Egitos" (a primeira vendo a criança como um futuro
pescador e a segunda como um operário, alguém de condição e
de moradia melhores), as falas dos presentes, reconhecendo que
"o menino magro / de muito peso não é, mas tem o peso de
homem, de obra de ventre de mulher" e poeticamente o
descrevendo ("é belo como o coqueiro / que vence a areia
marinha...", "é tão belo como um sim / numa sala
negativa",... "belo porque é uma porta / abrindo-se
em mais saídas...", "belo porque corrompe / com
sangue novo de anemia..." criam atmosfera do trecho 18,
que finaliza o poema.
Nele - O carpina fala com
o retirante que esteve fora, sem tomar parte em nada"- o
pai do menino recém-nascido mostra o filho como fato-exemplo de
que a vida deve ser celebrada ela própria, que a sua explosão
- que assemelha ao nascimento de mais um pobre o renascimento da
existência - pode inverter a seqüência de sombras em que
mergulhara o retirante, e com ele o leitor, e substituí-la por
outra resposta: "E não há melhor resposta / que o espetáculo
da vida: / vê-la desfiar seu fio, / que também se chama vida,
/ ver fábrica que ela mesma, / teimosamente, se fabrica, / vê-la
brotar como há pouco / em nova vida explodida; / mesmo quando
é assim pequena / a explosão, como a ocorrida; / mesmo quando
é a explosão / como a de há pouco, franzina; / mesmo quando
é a explosão / de uma vida severina".
Morte e Vida Severina -
Personagens
Além do mestre
carpinteiro que representa a possibilidade de esperança na vida
através da própria vida se fazendo e refazendo, o protagonista
da obra, seu personagem modelar de quem o mestre constitui a
"outra face" é o retirante personificado por
Severino. Vamos, então, analisá-lo.
No primeiro trecho, ele
se apresenta aos leitores - pessoas letradas e pertencentes ao
mundo urbano - chamando-as de "Vossa Senhorias" e
inicialmente procurando distinguir-se enquanto indivíduo.
Para fazê-lo, detalha ao
máximo o seu nome - "é o Severino / da Maria do Zacarias,
/ lá da Serra da Costela, / limites da Paraíba".
Entretanto, isso ainda diz pouco: "Se ao menos mais cinco
havia / com o nome de Severino / filhos de tantas Marias /
Mulheres de outros tantos, / já finados, Zacarias, / vivendo na
mesma Serra / magra e ossuda em que eu vivia".
Neste trecho que inicia o
auto, um de seus eixos temáticos fundamentais pode ser notado
com facilidade: o anonimato de uma gente cuja vida só tem a
morte como horizonte - "E se somos Severinos / iguais em
tudo na vida, / morremos de morte igual, / mesma morte severina,
/ que é a morte de quem se morre / de velhice antes dos trinta,
/ de emboscada antes dos vinte, / de fome um pouco por dia / de
fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em
qualquer idade / e até gente não nascida".
Repare que a pluralização
do nome próprio Severino transforma-o em nome comum, nome que
simboliza a violência e a miséria de vidas tão iguais quanto
as mortes... "esta morte severina".
Agora, a palavra torna-se
um adjetivo que caracteriza a precariedade da existência dos
seres oprimidos pela seca e pelo conservadorismo de um sistema sócio-econômico-político
opressor, de estrutura anacronicamente reacionária (os
severinos como descendentes do Coronel Zacarias, o "mais
antigo senhor desta sesmaria", e de mães chamadas
Marias...)
A sina, o destino, a
fatalidade de "abrandar pedras", de "tentar
despertar terra sempre mais extinta" constituiu outro
elemento temático que persiste ao longo de todo o texto, cujo
conteúdo de denúncia social fica nítido no enredo, na
caraterização do personagem principal e modelar do livro,
Severino, e, como veremos, no tempos/espaço e na linguagem da
obra.
Morte e Vida Severina - Tempo
/ espaço
Os aspectos temporais
espaciais de Morte e vida severina entrelaçam-se a características
da obra estudadas em seu enredo e através de seu protagonista,
Severino. Enquanto o tempo é indeterminado cronologicamente,
dando-nos a situação da seca como único marcador, que parece
eternizá-lo, o espaço possui um movimento de deslocamento mais
simbólico que real, embora aconteça de fato.
Isto porque a travessia
do retirante do Agreste para a Caatinga, da Caatinga para a Zona
da Mata, da Zona da Mata para o Recife, não apenas não muda as
suas perspectivas de vida, mas, ao contrário, apenas
intensifica o acúmulo de mortes que o leva a pensar em jogar-se
no rio e apressar a própria morte.
Assim, tanto tempo quanto
o espaço intensificam o caráter de denúncia social do texto,
o qual , pela simbologia da vida representada via nascimento de
uma criança, e via significado desse nascimento de acordo com
as palavras do mestre carpina, conjuga a denúncia de que
reveste com um lirismo que não chega nem pretende chegar a seu
redentor, reconfortante, mas que colore de tons substantivamente
poéticos a possibilidade de esperanças presente em Morte e
vida severina.
Morte e Vida Severina -
Linguagem
Conhecido como
"engenheiro da palavra" por sua poesia precisa,
substantiva, elíptica, mais plástica que musical, João Cabral
de Melo Neto surpreendeu alguns críticos ao conseguir conjugar
tais características, que mantêm na obra que lemos, com outros
recursos que o tornam mais "legível" e conseqüentemente
menos "hermético". Tais recursos estão vivos na
linguagem concisa mas fluída e permeada de expressões e
musicalidade popular de Morte e vida severina, na sedução de
sua leitura pelos fortes traços orais, pelas rimas e repetições
que não enfraquecem, mas, ao contrário, intensificam a tensão
dramática, e principalmente no lirismo que soletra a vida e a
celebra, ao mesmo tempo em que denuncia de forma implacável os
fatores que a impedem de expandir-se: a seca e os arbítrios, os
desmandos, os responsáveis por ela e por suas conseqüências.
Vamos terminar este
trabalho com a opinião de um estudioso e mais um fragmento do
texto, para lermos, relermos e reconhecermos sua intensidade
enquanto texto literário e enquanto peça teatral.
“A visão plástica
(...) é tão predominante em João Cabral de Melo Neto que
acarreta o quase amortecimento do lado musical (...). Dessa
forma, sua poesia pode parecer - ante uma tradição que
tem timbrado em requintar o lado musical (e/ou rítmico
e/ou fônico) - algumas vezes "dura" aos menos
avisados ou mesmo aos pseudo-avisados (...). E não estranhará
que tenha sido a consciência disso que o tenha levado,
quando quer obter efeitos rítmicos mais definidos, aos metros
tradicionais da redondilha e do romance. Mas a repulsa aos
apoios fonéticos não necessários à sua visão poética é
tal, que raríssimos são os casos de rimas, salvo as toantes, e
estas são freqüentes sobretudo como "molde" ou
"fôrma" para a obtenção de uma certa fixidez poemática
(...). Chega à situação de um sábio que esgotou toda a
teoria neutra de sua ciência, viu que por sua pretensa
neutralidade era uma ciência a serviço, viu mais - que a serviço
de uma causa que não era a da ciência mesma e se perguntou
qual seria, pois, aquela ciência sincera, que se pudesse pôr a
serviço do homem...” Antônio Houaiss, obra citada
- Severino,
retirante,
deixa agora que lhe
diga:
eu não sei bem a
resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais
saltar
fora da ponta e da
vida;
nem conheço essa
resposta,
se quer mesmo que lhe
diga.
É difícil defender,
só com palavras, a
vida,
ainda mais quando ela
é
esta que vê,
severina;
mas se responder não
pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a
respondeu
com sua presença
viva.
(Trecho 18 - o carpina
fala o retirante que esteve de fora sem tomar parte me nada).
*Emília Amaral
Material do COC –
CD-ROOM
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