| LUCÍOLA José
de Alencar
Com rápidas palavras,
o crítico Manuel Cavalcanti Proença situa o escritor José de
Alencar no contexto dos escritores românticos brasileiros:
"Para a idéia ainda hoje corrente, do artista anti-social,
rebelde às convenções, inadaptado e boêmio, a vida de José
de Alencar é uma decepção. Não tem aquele grão de loucura
que aparece em Fagundes Varela, dipsomaníaco, descendo a
ofertar quadras improvisadas a botequineiros, a troco de cachaça;
não tem aquele traço de destino trágico que marca a fronte de
um Castro Alves, morrendo de amores por mulheres belas e fatais,
morrendo de gangrena na casa dos vinte anos; não tem aquele
marginalismo de Bernardo Guimarães, em que a cultura não
passou de verniz a redescobrir uma alma de tropeiro nômade. José
de Alencar foi homem normal, de vida plena e clara na superfície;
se morreu de tuberculose, isso se deve ao atraso da medicina de
seu tempo do que à escola romântica.
O que distingue dos
contemporâneos é a consciência, despertada cedo, de que o
artista se faz é pelo domínio de seu instrumento de trabalho.
Fantasia, ele a tinha, e vertiginosa por vezes, mas sob suas
leves nuvens, havia chão sólido de preparo, de leitura e de
exercícios, em que firmava pé os saltos, vôos e até
cabriolas que executou." (in José de Alencar na Literatura
Brasileira, 2ª ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1972, p.7).
Várias têm sido as
divisões das obras de Alencar. Praticamente todas se baseiam na
divisão feita por ele mesmo quando, no prefácio ao romance
Sonho d'Ouro, 1872, traçou o provável plano geral de suas
obras. Os críticos modernos sugerem mais ou menos esta
classificação:
1. Romances
urbanos: Cinco Minutos, A Viuvinha, LUCÍOLA, Diva, A Pata
da Gazela, Sonhos d' Ouro, Senhora, Encarnação.
2. Romances históricos:
O Guarani, As Minas de Prata, Alfarrábios, Guerra dos Mascates,
Iracema e Ubirajara.
3. Romances
regionalistas: O Gaúcho, O Tronco do Ipê, Til, O
Sertanejo.
LUCÍOLA é o quinto
romance de Alencar e o primeiro da trilogia que ele denominou de
"perfis de mulheres" (Lucíola, Diva e Senhora).
Situa-se entre seus romances urbanos que representam um
levantamento da nossa vida burguesa do século passado mais
considerável do que o levado a efeito por Machado de Assis, na
opinião de Heron de Alencar. Fixam o Rio de Janeiro da época,
com a sua fisionomia burguesa e tradicional, com uma sociedade
endinheirada que freqüentava o Teatro Lírico, passeava à
tarde na Rua do Ouvidor e à noite no Passeio Público, morava
no Flamengo, em Botafogo ou Santa Teresa e era protagonista de
dramas de amor que iam do simples namoro à paixão desvairada.
Em todos os romance
urbanos, Alencar aborda o amor como tema central. Ou, para ser
mais exato, "aborda a situação social e familiar da
mulher, em face do casamento e do amor" segundo Heron de
Alencar. Mas o amor como o entendia a mentalidade romântica da
época, "um amor sublimado, idealizado, capaz de renúncias,
de sacrifícios, de heroísmos e até de crimes, mas
redimindo-se pela própria força acrisoladora de sua
intensidade e de sua paixão." (Oscar Mendes, in José de
Alencar - romances urbanos, Rio de Janeiro, Agir, 1965, Col.
Nossos Clássicos - p.10).
Baseando-se na enorme
aceitação de Alencar junto ao público, Antônio Cândido
comprova a existência de pelo menos dois Alencares:
"o Alencar dos
rapazes, heróico, altissonante, criando heróis como Peri,
Ubirajara, Estácio Correia (As Minas de Prata), Manuel Canho (O
Gaúcho), Arnaldo Louredo (O Sertanejo).
o Alencar das
mocinhas, gracioso, às vezes pelintra, outras, quase trágico,
criador de mulheres cândidas e de moços impecavelmente bons,
que dançam aos olhos do leitor uma branda quadrilha, ao
compasso do dever e da consciência, mais fortes que a paixão.
As regras desse jogo bem conduzido exigem inicialmente um
obstáculo, que ameace a união dos namorados, sem contudo
destruí-la. Todavia, há pelo menos um terceiro Alencar, o que
se poderia chamar dos adultos, formado por uma série de
elementos pouco heróicos e pouco elegantes, mas detonadores dum
senso artístico e humano que dá contorno aquilino a alguns dos
seus perfis de homem e de mulher. Este Alencar, difuso pelos
outros livros, se contém mais visivelmente em Senhora e,
sobretudo, LUCÍOLA, únicos livros, em que a mulher e o homem
se defrontam num plano de igualdade, dotados de peso específico
e capaz daquele amadurecimento interior inexistente nos outros
bonecos e bonecas." (in Formação da Literatura
Brasileira, 4ª ed., São Paulo, Martins, 1971, 2º vol. P.222).
O AMOR DE LÚCIA E PAULO
LUCÍOLA, publicado em
1862, é um romance de amor bem ao sabor do Romantismo, muito
embora uma ou outra manifestação do estilo Realista aí se faça
presente. Trata-se de um romance de "primeira pessoa",
ou seja, o narrador da história é um personagem importante da
mesma, Paulo Silva. E ele a narra em cartas dirigidas a uma
senhora, G. M. (pseudônimo de Alencar), que as publica em livro
com o título de LUCÍOLA.
Paulo Silva, o
personagem-narrador, é um rapaz de 25 anos, pernambucano, recém-chegado
ao Rio de Janeiro, em 1855, com a intenção de aí se
estabelecer.
No dia mesmo de sua
chegada à corte (Rio de Janeiro), após o jantar, sai em
companhia de um amigo para conhecer a cidade. Na rua das
Mangueiras vê passar em um carro uma jovem muito bela. Um
imprevisto faz parar o carro, dando a Paulo a oportunidade de
repará-la melhor. Dia após, em companhia de outro amigo, o Dr.
Sá, Paulo participa da festa de N. Senhora da Glória, quando
lhe aparece a linda moça. Informando-se do amigo, fica sabendo
tratar-se de Lúcia, a prostituta mais bela, requintada e
disputada da cidade. Mas ele se impressiona com a "expressão
cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo
quando os lábios dessa mulher revelam a cortesã franca e
impudente."
Mais ou menos um mês após
sua chegada, Paulo vai à procura de Lúcia, levado, é claro
pelo desejo de possuir aquela linda mulher. Após longa e agradável
conversa, acaba se surpreendendo com o "casto e ingênuo
perfume que respirava de toda a sua pessoa". A um mínimo
lance de seus seios, "ela se enrubesceu como uma menina e
fechou o roupão" discretamente. E ele, que fora quente de
desejos, agora, na rua, se acha ridículo por não haver ousado
mais. Além do que, o Dr. Sá lhe confirmara que "Lúcia é
a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou
mesmo alguns dias de extravagância."
No dia seguinte Paulo está
de volta à casa da heroína. Ao seu primeiro ataque, Lúcia se
opõe com duas lágrima nos olhos. Supondo ser fingimento,
mostra-se aborrecido e ela reage atirando-se completamente
nua em seus braços, já que era isso que Paulo queria. Mas no
auge do prazer do sexo, Paulo percebe algo diferente nas carícias
de Lúcia: mesmo no clímax do gozo, parece que ela sofria.
Sente, na hora, um imenso dó, ao que ela corresponde
cinicamente: "- Que importa? Contanto que tenha gozado de
minha mocidade! De que serve a velhice às mulheres como
eu?" Ele quer pagar-lhe, ela rejeita com um meigo aperto de
mão. E ele retira-se realmente confuso com "a
singularidade daquela cortesã, que ora levava a impudência até
o cinismo, ora esquecia-se do seu papel no simples e modesto
recato de uma senhora".
E as informações que
lhe chegam a seu respeito são as piores. O Cunha diz que ela é
"a mais bonita mulher do Rio e também a mais caprichosa e
excêntrica. Ninguém a compreende. "Nunca fica muito tempo
com o mesmo amante, "pois não admite que ninguém adquira
direitos sobre ela." Além do mais, é avarenta. Vende tudo
o que ganha. Até roupas. Para Paulo, no entanto, ela parece ser
ao contrário de tudo isso. Afinal, ela finge para ele ou já o
ama? Paulo fica em dúvida atroz.
Po aqueles dias, numa
ceia em casa do Sá, com pessoas (Lúcia, Paulo, Sr. Couto,
Laura, Nina, Rochinha, etc...) maldosamente convidadas para
transformar a ceia em bacanal, Lúcia desfila toda nua, imitando
as poses lascivas dos quadros que estavam nas paredes, ante os
olhares voluptuosos dos presentes. Depois, em lágrimas, nos
jardins da casa, ela se explica a Paulo. Fez aquilo por
desespero, pois ele havia zombado dela momentos antes: "se
o Senhor não zombasse de mim, não o teria feito por coisa
alguma deste mundo..."E depois porque teria sido uma decepção
total, afinal o que Sá pretendia era mostrar a seu amigo Paulo
quem era Lúcia. "Não foi para isso que se deu essa ceia?!
- explicou Lúcia. E os dois se amaram profundamente, lá mesmo
no jardim, á luz da lua, até de madrugada.
Decorridos alguns dias,
Paulo de certo modo passa a morar com Lúcia, e, apesar das
prevenções e restrições, mais e mais se liga a ela por
afeto. Lúcia, por sua vez, já ama Paulo e se entrega e ele
como a um dono e senhor. Há momentos de atritos entre ambos.
Passageiros, e todos causados pelo egoísmo e incompreensão de
Paulo que não entende as profundas transformações que o seu
afeto operou nela. E a tal ponto , que ela não suportaria mais
a idéia de se lhe entregar na cama, pois sente por ele um amor
muito puro e profundo. E ele, levado mais por desejo que por
afeto, não consegue aceitar esse comportamento sublime.
As más línguas já
comentam que Paulo, além de viver à custa de Lúcia, ainda a
proíbe de freqüentar a sociedade. Lúcia que já então
procurava viver mais retraída dispõe-se a voltar à vida
mundana apenas para salvar-lhe a reputação. Mas Paulo -
complicado, sádico, estúpido e chato - não compreende.
Lúcia já não vibra
como outrora. Mesmo quando excitada por Paulo. É a doença que
já se faz sentir. Paulo não entende essa frieza e por vezes se
exaspera. Ela sofre calada pois reconhece que "o amor para
uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus
poderia infligir-lhe!". O grande sentimento que os unia,
arrefece, dando lugar a uma amizade simplesmente.
O comportamento de Lúcia
é cada vez mais sublime e heróico. Já não existe mais nada
da antiga cortesã. E Paulo, por fim, entende essa nobreza de
caráter e compreende o porquê das suas recusas. Ela lhe
recusava o corpo porque o amava em espírito. E também porque já
está doente. Paulo promete respeitá-la de ora em diante.
Lúcia um dia lhe revela
todo o seu passado. Chamava-se Maria da Glória. Era uma menina
feliz de 14 anos e morava com os pais, quando, em 1850,
sobreveio a terrível febre amarela. Seus pais, os três irmãos,
uma tia caíram de cama, Ela ficou só. No auge do desespero,
resolveu pedir ajuda a um vizinho rico, Sr. Couto, que em troca
de algumas moedas de ouro tirou-lhe a inocência. "o
dinheiro ganho com a minha vergonha salvou a vida de meu pai e
trouxe-nos um raio de esperança." Seu pai, porém, sabendo
da origem do dinheiro, e supondo ter a filha um amante, a
expulsou de casa. Sozinha, sem ter aonde ir, foi acolhida por
uma mulher, Jesuína, que, quinze dias depois, à conduziu à
prostituição, estipulando pela beleza de seu corpo um alto preço.
O dinheiro, ela o usava para cuidar do que restava da família:
"e eu tive o supremo alívio de comprar com a minha desgraça
a vida de meus pais e de minha irmã".
Uma colega de infortúnio
foi morar com ela. Chamava-se Lúcia. Tornaram-se amigas. Lúcia
morreu pouco depois. No atestado de óbito, a heroína fez
constar que a falecida se chamava Maria da Glória, adotando
para si o nome da amiga morta. "Morri pois para o mundo e
para minha família. Meus pais choravam sua filha morta; mas já
não se envergonhavam de sua filha prostituída." E todo
dinheiro que ganhava, destinava-o à preparação de um dote
para sua irmã, Ana, a qual passou a manter num colégio interno
depois da morte dos pais.
Agora Paulo compreende
ainda melhor as atitudes misteriosas e contraditórias que Lúcia
tomava como cortesã. É que esse gênero de vida lhe parecia sórdido
e abjeto. Ela suportava como a um martírio, uma autopunição,
uma maneira de reparar o seu pecado. Conhecido se passado heróico,
ele passa a sentir por Lúcia uma grande ternura e um amor
sincero.
Seguem-se dias tranqüilos.
Lúcia muda-se para uma casinha modesta e Ana mora com ela.
"isto não pode durar muito! É impossível!" É o
pressentimento da morte. Lúcia tenta convencer Paulo a se casar
com Ana, que já o ama também. Seria uma maneira de perpetuar o
amor de ambos, já que ela se julga indigna do puro amor
conjugal. Paulo rejeita com veemência em nome do amor que
não sente por Ana.
Lúcia aborta o filho que
esperava de Paulo. Ela se recusa a tomar remédio para expelir o
feto morto, dizendo "Sua mãe lhe servirá de túmulo".
E já no leito de morte, recebe o juramento de Paulo
prometendo-lhe cuidar de Ana como sua filha. E morre docemente
nos braços de seu amado, indo amá-lo por toda a eternidade.
CARACTERÍSTICAS ROMÂNTICAS
NA OBRA
1-SUBJETIVISMO -
o mundo do romântico gira em torno de seu "eu": do
que ele sente, do que ele pensa, do que ele quer. Por isso o
poeta e o personagem na ficção romântica estão em contínua
desarmonia com os valores e imposições da sociedade e/ou da
família.
Em LUCÍOLA encontram-se
pelo menos duas grande manifestações desse subjetivismo romântico.
A primeira está na própria estrutura narrativa do romance.
Trata-se de um romance de "primeira pessoa", em que a
história é narrada do ponto de vista de uma só pessoa. No
caso, Paulo. Tudo gira em torno do que ele viu, pensou, sentiu
junto a Lúcia. Tudo, portanto, muito individual. Já no cap. I,
Paulo esclarece que escreveu essas páginas para se justificar
perante uma senhora que estranhou "a minha (dele) excessiva
indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a
sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagância."
Para isso , "escrevi as páginas que lhe envio, as quais a
senhora dará um título e o destino que merecerem. É um
"perfil de mulher" apenas esboçado." (José de
Alencar, Lucíola, 3ª ed. São Paulo, Ática, 1976, p.11).
A Segunda está na oposição
indivíduo x sociedade. Para Edgard Cavalheiro "o divórcio
entre o homem e o meio é a pedra de toque de um autêntico espírito
romântico. Sobrepor sentimento à razão, o entusiasmo ao
raciocínio, o subjetivismo ao objetivismo, são diretrizes que
marcaram a escola..." No romance, Paulo e Lúcia ora se
insurgem contra as convenções sociais: "Que me importa o
que pensam a meu respeito?" (op. cit. p.64), ora satisfazem
essas mesmas convenções, embora sempre reafirmando o próprio
"eu" e fazendo a sua personalidade.
- "... Há certas
vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu
és um celebridade pela beleza. O público, em troca do favor e
admiração e que cerca os sue ídolos, pede-lhes conta de todas
as sua ações. Quer saber por que agora andas tão
retirada."
- "Ah! esquecia que
uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um
carro de praça que não pode recusar quem chega..." (op.
cit. p.67-68).
2- EXALTAÇÃO DO
AMOR - O amor é mola mestra da ficção romântica em prosa
e verso. Mas o amor sublime, alheio às convenções sociais,
feito de sacrifício e, às vezes, de heroísmos.
Em Lucíola, a temática
central está exatamente nesta exaltação do amor como força
purificadora, capaz de transformar uma prostituta numa amante
sincera e fiel.
"- o amor purifica e
dá sempre um novo encanto ao prazer. Há' mulheres que amam
toda a vida; e o seu coração, em vez de gastar-se e
envelhecer, remoça como natureza quando volta a
primavera."(op. cit. p.83).
"Tive força para
sacrificar-lhes outrora o meu corpo virgem; hoje depois de cinco
ano de infâmia, sinto que não teria a coragem de profanar a
castidade de minha alma. Não sei o que sou, sei que começo a
viver, que ressuscitei agora., disse Lúcia após sentir a afeição
de Paulo. (Op. cit. p.113).
E o romance termina com
esta patética exaltação do amor, balbuciada por um a
prostituta regenerada por esse mesmo amor, momentos antes de sua
morte: "Eu te amei desde o momento em que te vi! Eu te amei
por séculos nestes poucos dias que passamos juntos na terra.
Agora que a minha vida se conta por instantes, amo-te em cada
momento por uma existência inteira. Amo-te ao mesmo tempo com
todas as afeições que se pode ter neste mundo. Vou te amar
enfim por toda a eternidade." (op. cit. p.127)
3- AMOR E MORTE -
Em defesa do direito de amar e ser amado, os heróis e heroínas
românticos são capazes de sacrifícios e renúncias incríveis.
Diante da impossibilidade da concretização desse amor forte,
por injunções da sociedade ou da família, a atitude mais
comum entre os românticos é o desejo de morte. Morte natural
ou suicídio. As páginas românticas são fartas de tais
exemplos: Werther, Eurico, Carlota Ângela, Helena, Iracema,
etc. A vida passa a não ter sentido para eles, já que a morte
em tais casos é vida.
LUCÍOLA se enquadra
perfeitamente nessa linha trágica. O romance é impregnado da
idéia de morte pois Lúcia está continuamente a se queixar de
uma doença misteriosa que Paulo não compreende nem aceita,
supondo-se tratar-se de refinada desculpa para não se entregar
a ele sexualmente. Lúcia não acredita nem admite que uma
mulher como ela possa usufruir das alegrias e gozos do amor
conjugal, dando ao esposo "o mesmo corpo que tantos outros
tiveram". (op. cit. p. 83) Seria uma profanação do
verdadeiro amor. "O amor!... o amor para uma mulher como eu
seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe!
Mas o verdadeiro amor d'alma." (Idem, p.83)
Diante, portanto, da
impossibilidade de realização de um amor puro, só resta a Lúcia,
como personagem de um romance genuinamente romântico, uma saída:
a morte. Nem mesmo um filho ela merece, pois seria o fruto de um
amor vilipendiado. "Um filho, se Deus mo desse, seria o
perdão da minha culpa! Mas sinto que ele não poderia viver no
meu seio!" (op. cit. p.103). E, numa atitude típica de
heroína romântica, Lúcia anseia morrer nos braços do homem
amado: "Ainda quando soubesse que morreria nos seus braços...
Que morte mais doce podia eu desejar!" (op. cit. p91)
"... desejava que fosse possível morrermos assim um no
outro... uma só vida extinguindo-se num só corpo!" (op.
cit. p.102). E assim se fez. Morreu ao lado do ser amado,
dizendo-lhe: "vou te amar enfim por toda a eternidade.
(...) Recebe-me... Paulo!" (op. cit. p.127).
4- SENTIMENTALISMO
MELANCÓLICO - o romântico é acima de tudo um sentimental.
A poesia, sobretudo, está infestada destas sensitivas melancólicas,
pessimistas e sentimentais: Álvares de Azevedo, Casimiro de
Abreu, Junqueira Freire, Varela e outros. Aqui e lá fora. Também
no romance se encontra uma galeria enorme de heróis e heroínas
choramingas, que colocam o sentimento acima da razão,
elegendo o coração como norma suprema de conduta pessoal e
social. O comportamento de tais personagens é imprevisível,,
dependendo de seus estados de alma.
Em LUCÍOLA, por exemplo,
um mínimo contratempo é o suficiente para lançar Lúcia ou
Paulo na mais profunda tristeza. Numerosas passagens do romance
colocam o leitor diante de quadros profundamente melancólicos.
Como esta:
"Foi terrível. Meu
pai, minha mãe, meus manos, todos caíram doentes: só havia em
pé minha tia e eu. Uma vizinha que viera acudir-nos, adoecera
à noite e não amanheceu. Ninguém mais se animou a fazer-nos
companhia. Estávamos na penúria; algum dinheiro que nos tinham
emprestado mal chegara para a botica. O médico, que nos fazia a
esmola de tratar, dera uma queda de cavalo e estava mal. Para cúmulo
de desespero, minha tia uma manhã não se pôde erguer da cama;
estava também com a febre. Fiquei só! Uma menina de 14 anos
para tratar de seis doentes graves, e achar recursos onde os não
havia. Não sei como não enlouqueci."(op. cit. p.110)
E esta outra, onde Lúcia
se fez passar por uma amiga morta para aliviar o sofrimento dos
pais: "Lúcia morreu tísica; quando veio o médico passar
o atestado, troquei os nosso nomes., Meu pai leu no jornal o óbito
de sua filha; e muitas vezes o encontrei junto dessa sepultura
onde ele ia rezar por mim, e eu pela única amiga que tive neste
mundo. Morri pois para o mundo e para minha família. Meus pais
choravam sua filha morta; mas já não se envergonhavam de sua
filha prostituída." (op. cit. p.112).
Muitas das atitudes
tomadas por Paulo ou Lúcia são próprias de pessoas que se
deixam guiar pelo sentimento. Esta, por exemplo, esquisita e
inexplicável de Lúcia " - Iremos juntos!... murmurou
descaindo inerte sobre as almofadas do leito. Sua mãe lhe
servirá de túmulo." (op. cit. p. 126).
Enfim, o romance todo, do
início ao fim, está impregnado de uma atmosfera melancólico-sentimental.
5- ILOGISMO -
Para Domício Proença tal ilogismo, na literatura romântica,
"leva, inclusive, a uma instabilidade emocional traduzida
em atitudes antitéticas ou paradoxais: alegria e tristeza,
entusiasmo e depressão."
Tal ilogismo parece ser
um dos pontos altos de LUCÍOLA. Os paradoxos; o comportamento
ora excêntrico ora dúbio de Lúcia, ora virtuoso, ora
pecaminoso que vai lançando Paulo numa dúvida angustiante: a
própria duplicidade comportamental de Paulo, generoso e
mesquinho, compreensivo e intransigente, correto e pilantra;
tudo isso dá à intriga do romance um atrativo todo especial
que, por sua vez, ora atrai ora aborrece o leitor.
Há ainda outras
manifestações de Romantismo no romance, tais como, imaginação
e fantasia, culto da natureza, senso do mistério, exagero. Mas
são de importância secundária.
CARACTERÍSTICAS DE JOSÉ DE
ALENCAR
1- LIRISMO - Não
no sentido de gênero literário, mas no sentido de visão lírica
da realidade. Nesse aspecto, Alencar é um escritor
eminentemente lírico, pois é delicado, terno, de sensibilidade
fina, imaginação fértil, estilo cheio de graça e harmonia. A
realidade , principalmente a natureza, sempre que possível, é
embelezada poeticamente na sua pena. A maioria dos críticos são
concordes em que ele criou seu estilo, expresso numa
musicalidade toda sua.
Há um lirismo bem bucólico
nesta passagem de LUCÍOLA: "Sentamo-nos sobre a relva
coberta d flores e à borda de um pequeno tanque natural, cujas
águas límpidas espelhavam a doce serenidade do céu azul. Lúcia
tirou do bolso seu crochê e o novelo de torçal, e continuou
uma gravata que estava fazendo para mim. Enquanto ela
trabalhava, eu arrancava as flores silvestres para enfeitar-lhe
os cabelos; ou arrastava-me pela relva para beijar-lhe a ponta
da botina que aparecia sob a orla do vestido." (p.105)
E nesta outra há graça,
ternura, sentimento: "Toquei com os lábios a raiz daqueles
cabelos sedosos que ondulavam com o sopro de minha respiração.
Ana teve um estremecimento íntimo; e banhou-se na onda de púrpura
que descendo-lhe da fronte, derramou-se pelas espáduas roseando
a branca escumilha." (p. 120)
2- GOSTO PELA DESRIÇÃO
- A descrição parece ser o forte de Alencar.
Principalmente dessas três realidades: paisagem, personagem e
vestuário feminino. A descrição da paisagem sobressai em
qualidade e quantidades nos seus romances regionalistas e
indianistas. Mesmo nos urbanos, sempre haverá um parêntese
reservado para a paisagem (natureza) ou cenário (salões,
ambientes). Em LUCÍOLA, de quando em quando aparece a natureza
como a aliviar o leitor das tensões dos dramas humanos.
Quanto à descrição dos
personagens, Alencar parece se preocupar antes com o aspecto
externo para depois chegar ao temperamento. "O físico,
ainda antes das ações e intenções, define seus personagens.
Para mostrar-lhes a alma, o autor nos adverte sobre seus planos
e projetos, mas primeiro lhes descreve rosto e corpo, olhos,
voz, gestos. E tem sempre o cuidado de acentuar traços que lhe
parecem reveladores de defeitos ou virtudes, roteiros para o
conhecimento psicológico" (M. Cavalcanti Proença, op.
cit. p.47).
Antes mesmo de o leitor
saber quem era ela, já Alencar lhe mostrou o retrato de Lúcia
no cap. II: "Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto
e de suprema elegância. O vestido que o moldava era cinzento
com orlas de veludo castanho e dava esquisito realce a um desses
rostos suaves, puros e diáfanos, que parecem vão desfazer-se
ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada. Ressumbrava
na sua muda contemplação doce melancolia e não sei que laivos
de tão ingênua castidade, que o meu olhar repousou calmo e
sereno na mimosa aparição." (p. 13). Na passagem seguinte
Alencar como que nos conduz do exterior ao interior de Lúcia:
"O rosto suave e harmonioso, o colo e as espáduas nuas,
nadavam como cisnes naquele mar de leite, que ondeava sobre
formas divinas. A expressão angélica de sua fisionomia naquele
instante, a atitude modesta e quase íntima, e a singeleza das
vestes níveas e transparentes, davam-lhe frescor e viço de infância,
que devia influir pensamentos calmos, senão puros."
(p.27).
No que concerne ao vestuário
feminino é inegável a influência que Balzac exerceu em
Alencar. E Antônio Cândido confirma: "Alencar não denota
a influência marcada do mestre francês apenas na criação de
mulheres cujo porte espiritual domina os homens, ou na mistura
do romanesco e da realidade. Denota-a principalmente na intuição
da vestimenta feminina, que aborda como elemento de revelação
da vida interior: os vestidos de Lúcia, por exemplo, desde o
discreto, de sarja gris, com que aparece na festa da Glória, até
a chama de sedas vermelhas com que se envolve num momento de
desesperada resolução, são tratados com expressivo
discernimento." (op. cit. p.234).
Nesta citação de LUCÍOLA,
Alencar mostra que realmente entende do "babado":
"Lúcia fitou-se por muito tempo, e chegou-se ao espelho
para dar os últimos toques ao seu traje, que se compunha de um
vestido escarlate com largos folhos de renda preta, bastante
decotado para deixar ver suas belas espáduas, de um filó alvo
e transparente que flutuava-lhe pelo seio cingindo o colo, e de
uma profusão de brilhantes magníficos capaz de tentar Eva, se
ela tivesse resistido ao fruto proibido. Uma grinalda de espigas
de trigo, cingia-lhe a fronte e caía sobre os ombros com a
vasta madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros
anéis que brincavam." (p.71).
3- COMPARAÇÕES -
É um corolário do gosto pela descrição. As comparações de
Alencar, geralmente, referem-se aos personagens, ora em seus
detalhes físicos, ora em seus estados de alma, ora em seus
atributos morais. O segundo termo da comparação é colhido, na
esmagadora maioria das vezes, de elementos da natureza: reino
vegetal, animal ou mineral. Uma confirmação do que se disse
está neste trechinho: "Como as aves de arribação, que
tornando ao ninho abandonado, trazem ainda nas asas o aroma das
árvores exóticas em que pousaram nas remotas regiões, Lúcia
conservava do mundo a elegância e a distinção que se tinham
por assim dizer impresso e gravado na sua pessoa." (p.117).
4- DESARMONIAS
- É mais ou menos aquilo que atrás se chamou de
"ilogismo". Lá, tal ilogismo foi mostrado como uma
das características românticas no livro. Aqui, as
"desarmonias" aparecem como uma das características
do estilo alencariano. Quem as explica é o mestre Antônio Cândido:
"Outro fator dinâmico na obra de Alencar é a desarmonia,
o contraste duma situação, duma pessoa ou dum sentimento
normal, e tido por isso como bom, com uma situação, pessoa ou
sentimento discordante. Sob forma mais elementar, é o choque do
bem e do mal. (...) Em Lucíola, a luxúria do velho Couto, e
mais tarde a prática do vício, torcem a personalidade de Lúcia.
A forma refinada desse sentimento da discordância é certa
preocupação com o desvio do equilíbrio fisiológico ou psíquico.
Relembre-se a depravação com que Lúcia se estimula e castiga
ao mesmo tempo, e cujo momento culminante é a orgia promovida
por Sá - orgia espetacular, com tapetes de pelúcia escarlate,
quadros vivos obscenos, flores e meia luz, ultrapassando o
realismo qualquer outra cena em nossa literatura séria."(op.
cit. p.230).
Já se disse atrás que o
ilogismo, ou seja, o contraste de situações, pessoas ou
sentimentos constitui o aspecto mais significativo na intriga
romanesca de LUCÍOLA. E não será difícil ao leitor observar
a presença dessas desarmonias ou contrastes no livro. Dentre
muitos exemplos que se poderiam dar de "desarmonia" de
situações, está o contraste entre Maria da Glória e Lúcia:
aquela, pobre, simples, escondida; esta, rica, caprichosa, pública.
Mas isso já é um conflito entre o passado e o presente.. Porém,
os contrastes mais importantes na técnica narrativa do livro são
aqueles relacionados com pessoas e sentimentos. De Paulo e Lúcia,
naturalmente.
A mesma Lúcia que compôs
recatadamente o roupão ante os olhos ávidos e voluptosos de
Paulo que vislumbravam o simples contorno de um seio foi capaz
de desfilar nua na ceia em casa do Sá. Ela é assim: contraditória.
Ama e odeia. Atira-se ao vício e tende para a virtude, segundo
suas próprias palavras: "Eis a minha vida... deixara-me
arrastar ao mais profundo abismo da depravação; contudo,
quando entrava em mim, na solidão de minha vida íntima, sentia
que eu não era uma cortesã como aquelas que me cercavam.
Ficaram gravados no meu coração certos germes de
virtudes..."(p. 112).
Também Paulo apresenta
um comportamento paradoxal. Ora ele deseja violentamente Lúcia
ora promete respeitá-la. Ofende-a e pede-lhe perdão; dá-lhe
liberdade e a quer só para si; despreza-a e sente dela pungente
ciúme; vê nela uma prostituta refinada e uma menina de quinze
anos, pura e cândida. Também Paulo é contraditório: vil e
magnânimo, como todo bípede implume e social chamado homem.
ESTRUTURA DA OBRA
1- TÉCNICA
NARRATIVA - Por técnica narrativa se entende o conjunto de
recursos utilizados pelo autor para fazer o enredo (a ação)
chegar até o leitor.
LUCÍOLA é um romance de
primeira pessoa, ou seja, quem narra a história não é Alencar
diretamente. Ele o faz por meio de um personagem que viveu os
episódios. No caso, esse personagem narrador é Paulo, que em
cartas dirigidas a uma senhora (por quem o autor se faz passar)
conta uma história de amor acontecida há seis anos entre ele e
Lúcia. A senhora reuniu as cartas e delas fez o livro.
"Eis o destino que lhes dou; quanto ao título, não me foi
difícil achar. O nome da moça, cujo perfil o senhor me
desenhou com tanto esmero, lembrou-me o nome de um inseto.
"Lucíola" é o lampiro noturno que brilha de uma luz
tão viva no seio da treva e à beira dos charcos. Não será a
imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva
a pureza d'alma?"
No capítulo I, o
narrador explica a razão das cartas: "A senhora estranhou,
na última vez que estivemos juntos, a minha excessiva indulgência
pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a
ostentação do seu luxo e extravagâncias". (p.11).
Na estrutura narrativa de
LUCÍOLA, portanto, pode-se observar o seguinte:
a) há um autor real, José
de Alencar;
b) um autor fictício, a
senhora G. M., destinatária das cartas de Paulo.
c) Um narrador, Paulo,
com a incumbência e o privilégio de ordenar os fatos, comentá-los
e tirar-lhes conclusões.
à medida que transmite
os fatos, vai fornecendo ao leitor elementos para a análise de
Lúcia e dele mesmo.
No romance analisado,
os fatos são apresentados sob dois pontos de vista, dois ângulos
diferentes: o de Paulo/personagem que transmite ao leitor as
sensações vividas com Lúcia e o de Paulo/narrador que, por
vezes, interrompe a narrativa fazendo reflexões ou dirigindo-se
à destinatária de suas cartas.
O enredo abrange um
período de aproximadamente seis meses. Foi o que durou o namoro
do par romântico. Às vezes, o autor avança a narrativa com
soluções bem simples: "Essa vida calma e tranqüila,
remanso de uma existência tão agitada, durava cerca de um mês."(p.1116).
Em outras, retarda-a: dedicou três capítulos para a ceia em
casa de Sá (capítulos VI, VII e VIII).
2- TÉNICA DE
COMPOSIÇÃO - No estudo de um romance é costume observar,
além da técnica narrativa do autor, a ação, o tempo, o lugar
e as personagens.
A - AÇÃO. Já
se disse antes que a ação de LUCÍOLA (=enredo) gira em torno
de uma história entre Paulo e Lúcia, com todos os ingredientes
de um romance romântico: heróis e vilões, heroínas
incompreendidas, virgens pálidas e meigas e cortesãs
depravadas, a morte como única saída para um amor verdadeiro
porém impossível, etc.
A ação num romance,
como um filme, se caracteriza por uma "simultaneidade dramática".
Explicando: são vários episódios colhidos, pelo autor, numa
realidade social ou pessoal e interligados no romance. Tais episódios
ocorrem simultaneamente, como na vida real. Mas esta
simultaneidade, o autor confere maior evidência a um dos
"casos" que funciona como núcleo central da
narrativa. Há, portanto, no romance um episódio central em
torno do qual giram outros secundários.
Em LUCÍOLA, o núcleo
central da narrativa se concentra em Paulo e Lúcia, ora como
duas individualidades com passado e presente próprios, ora como
o "par romântico". E se concentra com tal
intensidade, (afinal o narrador é exatamente Paulo - o herói,
o mocinho - que ama a Lúcia - a heroína) que os episódios
envolvendo os demais personagens ficam totalmente ofuscados.
No núcleo central
- a história de amor entre Paulo e Lúcia - vão influenciar
principalmente as posições do Sr. Couto e de Ana: aquele no
sentido negativo de atrapalhar este amor; esta, no positivo,
como símbolo de uma quase perfeita perpetuação do amor dos
dois na terra.
B - TEMPO -
Significando "época retratada", é o século passa:
1855 - "A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em
1855". Numa leitura atenta, o leitor percebe no livro o Rio
de Janeiro da época de D. Pedro II, com seus salões, sua
burguesia, suas vitrinas chiques na Rua do Ouvidor com
mercadorias elegantes vindas de Paris ou Londres, seus tílburis,
seu vestuário, etc.
Como tempo narrativo, ele
é eminentemente "cronológico". Ou seja, em LUCÍOLA
os acontecimentos se sucedem numa ordem quase normal, com
uma seqüência natural de horas, dias, meses, anos. Só há um
momento em que o fluxo narrativo retroage: quando Lúcia narra a
Paulo seu passado. (Cap. XVIII eXIX). E em dois momentos ele
avança: o capítulo I e o finalzinho do último revelam o
estado de alma de Paulo seis anos após a morte de sua querida Lúcia:
"Terminei ontem este manuscrito, que lhe envio ainda úmido
de minhas lágrimas. (...) Hás seis anos que ela me
deixou; mas eu recebi a sua alma, que me acompanhará
eternamente." (p. 127)
C - LUGAR - O
cenário onde se desenrola a ação é o Rio de Janeiro. Há
referências de seus bairros (Santa Teresa), ruas (das
Mangueiras), população, festas (a da Glória), teatros, lojas
elegantes, etc.
É curiosa a relação
entre os locais e o comportamento amoroso-sexual de Paulo e Lúcia,
agindo aqueles no sentido de aproximação ou afastamento, de
maior ou menor realização do casal. O quarto de Lúcia é um
local de luxúria: "... e fazendo correr com um movimento
brusco a cortina de seda, desvendou de repente uma alcova
elegante e primorosamente ornada."(p. 23) Das várias vezes
que eles se uniram sexualmente neste luxuoso aposento, nenhuma,
parece, satisfez de fato o casal. A primeira delas terminou
assim: "Ao delírio sucedera prostração absoluta, orgasmo
da constituição violentamente abalada. Vendo então este corpo
inerte e pasmo, com os olhos vítreos e as mãos crispadas, tive
dó."(p.25)
O segundo encontro já
foi totalmente diferente, em local e desfecho. Foi nos jardins
da casa do Dr. Sá, onde Lúcia desfilara nua perante os
convidados. O cenário é bem ao gosto do romantismo: a
natureza. O leito é bucólico: "Fomos através das árvores
até um berço de relva coberto por espesso dossel de
jasmineiros em flor. Lúcia está vibrando: "- Sim! Esqueça
tudo, e nem se lembre que já me visse! Seja agora a primeira
vez!... Os beijos que lhe guardei, ninguém os teve nunca! Esse
, acredite, são puros!" (p.47). E o clímax foi aquele que
só um par enamorado consegue haurir do sexo: "Não fui eu
que possuí essa mulher; e sim ela que me possuiu todo, e tanto,
que não me resta daquela noite mais do que uma longa sensação
de imenso deleite, na qual me sentia afogar num mar de volúpia.
" (p.47)
Quando Lúcia passou a
morar numa casa pequena e pobre, em Santa Teresa, em companhia
de sua irmã Ana, menina inocente, não mais houve união carnal
entre eles. É que os dois já estavam unidos por um amor
espiritual. Uma afeição muito pura unia aquelas duas almas. E
tanto a simplicidade do local que "lembra o espaço feliz
de sua infância em São Domingos" quanto a inocência da
menina não comportava mais a depravação do sexo." O seu
beijo quase de irmã apenas de longe em longe bafejava-me a
fronte." (p.120)
D- PERSONAGENS -
Críticas e mais críticas têm sido feitas à falsidade de seus
heróis e à fantasia descontrolada com que Alencar maneja o
destino. Por exemplo, essa de Olívio Montenegro, seu ferrenho
crítico: "Um romancista com a imaginação de José de
Alencar pode pintar uma natureza extraordinária, como natureza
virgem do Brasil e dar uma impressão de grandeza, de invariável
grandeza. O elemento humano, porém, ninguém o representa
verdadeiramente com o capricho da sua fantasia. Tem-se que
observar, descobrir o homem. E essa descoberta é que em verdade
ninguém reconhece nos romances de Alencar. Ele procurou criar o
homem não à sua própria semelhança, como foi uma humildade
do próprio Deus, mas à semelhança de sua paisagem, e disforme
como ela."(in Romance Brasileiro, 2ª ed., Rio de Janeiro,
José Olympio, 1953, p.54). Falta-lhes densidade psicológica,
segundo o crítico citado. Mas é preciso lembrar-se de que o
romantismo é dado à exploração dos sentimentos dos
personagens sem a preocupação de inquirir pela causa última e
profunda dos mesmos. É o que explica M. Cavalcanti Proença:
"Não há que buscar-lhe, na obra, (de Alencar) poços
psicológicos, subterrâneos de paixões e de instintos, abismos
de dúvidas filosóficas tragando sentimentos. Apesar de
"fisiologistas", não eram esse os seus temas.
Ele foi um visual, um apaixonado das cores vivas, das superfícies
iluminadas, das formas harmoniosas. Como acentua Augusto Meyer,
"não acode a ninguém procurar nas suas páginas outra
coisa, senão o encanto dessa mesma superfície. É belo o espetáculo
e, como tal, satisfaz". (p.75).
Em Lucíola, uma
personagem apresenta grande complexidade psicológica, a par do
idealismo romântico com que foi concebida:
a) LÚCIA - Sua principal
característica é a contradição. Como cortesã era a mais
depravada. Basta que se lembre da orgia romana em casa de Sá.
No entanto, a prostituição era-lhe um tormento constante, já
que não se entregava totalmente a ela. E os atos libidinosos
constituíam para ela verdadeira autopunição aliada à
angustiante sentimento de culpa.
Coexistem nela duas
pessoa: Maria da Glória, a menina inocente e simples, e Lúcia,
a cortesã sedutora e caprichosa. No livro, sobressai a Lúcia,
Lúcifer, onde aparece 348 vezes contra 10 vezes como Maria da
Glória, anjo. Tal disparidade realça o motivo do romance: à
proporção que Lúcia vai amando e sendo amada por Paulo, ela
vai assumindo a Maria da Glória, sua verdadeira personalidade.
E reencontra assim, através dele, a dignidade e inocência
perdidas.
Pode-se expressa essa
duplicidade da seguinte maneira:
LÚCIA
mulher
depravação, luxúria
sentimento de culpa
prostituição
caprichosa, excêntrica
rejeita o amor
demônio
MARIA DA GRAÇA
menina
pureza, ingenuidade
dignidade
inocência
simples, meiga
tende para o amor
anjo
Perdida a virgindade física,
Lúcia, por meio da compreensão e amor de Paulo, tende para a
virgindade do espírito. "Elas não sabem, como tu, que eu
tenho outra virgindade, a virgindade do coração!"
(p.119). Para isso renuncia a qualquer amor sensual. Mesmo ao de
Paulo, de quem fora amante e a quem passou a negar um simples
beijo. Depois que ela o conheceu, não se entregou a nenhum
outro homem. É por isso que não cria no amor de Margarida, de
"A DAMA DAS CAMÉLIAS", porque ela não negou ao seu
amado Armando o corpo que tantos já haviam comprado.
E Lúcia recupera aos 19
anos a Maria da Glória que perdera aos 14. "Nada
perturbava a serenidade de Lúcia. Parecia realmente que sua
alma cândida, muito tempo adormecida na crisálida, acordara
por fim, e continuara a mocidade interrompida por um longo e
profundo letargo. (...) Ninguém diria que essa moça vivera
algum tempo numa sociedade livre." (P.116).
Mas essa transformação
completa custou-lhe penosos sacrifícios e sobretudo muita
incompreensão inicial por parte de Paulo. "Incompreensível
mulher! (...) Compreendo hoje as rápidas transições que se
operavam nessa mulher; mas naquela ocasião, como podia
adivinhar a causa ignota que transfigurava de repente a cortesã
depravada na menina ingênua, ou na amante apaixonada!"(p.
51).
Seus traços físicos:
cabelos e olhos pretos, a pele pálida. Sua expressão, contudo,
lembra ao leitor sua dualidade de caráter: o olhar ora é
"eloqüente, raio voluptoso", ora é límpido, raio de
luz de sua alma". É bem o ideal de beleza romântica,
"com sua virgindade de alma tão pura e tão absoluta, que
a não tisnaram os pecados do corpo. Por isso, mesmo nas horas
em que mais lhe esplende a glória de cortesã, o romancista a
veste simbolicamente de branco."
Se algum leitor não
entender bem a complexidade da personagem Lúcia, como o fez
Paulo no início do romance, não é de se estranhar, pois
afinal ela mesma se autodefiniu: "É difícil conhecer-me;
mais difícil do que pensa. Eu mesma, sei o que às vezes se
passa em mim? Não repare nestas esquisitices!"(p. 51).
b) PAULO - É
um provinciano de Pernambuco, 25 anos, que veio tentar se
estabelecer no Rio de Janeiro. O romance não esclarece se ele
é ou não formado. Sugere apenas. É o narrador da história e
como tal faz desviar a atenção do leitor para Lúcia e outros
aspectos, não revelando certas informações suas. Os detalhes
físico, por exemplo. Coisa, aliás, rara em José de Alencar,
tratando-se de personagem central.
Traçando o perfil de Lúcia,
ele acaba por revelar também os eu: espírito observador e sensível,
foi o único a compreender o estranho caráter de Lúcia. Seu
temperamento é reservado sem ser tímido: "... é hábito
meu, desde que entrei no mundo, não admitir os estranhos à
intimidade de minha vida, ainda mesmo quando se trata de objetos
sem conseqüência. Só dispo a minha alma entre amigos". E
como ele não possui reais amigos no Rio, nuances de sua
personalidade conhecem-se por deduções .
Suas reações psicológicas
são expressas em suas reflexões: "Que miserável
animalidade havia em mim naquela noite! Quando essa pobre mulher
atingia o sublime do heroísmo e da abnegação, eu descia até
a estupidez e à brutalidade!" (p.74). Ou nessa: "Não
conheço mais estúpido animal do que seja o bípede implume e
social, que chamam homem civilizado." (p.76)
A sua caminhada em direção
ao amor pela heroína foi lenta. No início, o que o impelia
para ela era a tração sexual. Paulo, então, não a entende e
transmite ao leitor suas incertezas e desconfianças. "Se
eu amasse essa mulher... mas tinha apenas sede de prazer; fazia
dessa moça uma idéia talvez falsa... " (p.118). Tais
desconfianças, por vezes, eram-lhe inoculadas pela sociedade
através de alguns representantes - Dr. Sá, Sr. Couto, Cunha.
"Cunha tinha razão, pensei eu; a cupidez e a avareza são
as molas ocultas que movem este belo autômato de carne."
(p.50). E chega mesmo a ser violento e sádico com ela. Isto se
deduz de várias passagens, como: "Esta noite a senhora não
se pertence: é um objeto, um bem do homem que a vestiu, que a
enfeitou e cobriu de jóias, para mostrar ao público a sua
riqueza e generosidade."(p.74). Outras vezes, sentiu foi dó:
"Sentia profunda compaixão por essa mulher. O seu pranto
me enterneceu; chorei com ela." (p.101). Houve um período
em que a afeição de ambos se arrefeceu. Paulo já a admira e
dedica-lhe grande respeito e amizade: "Entramos então numa
nova fase de nossa mútua existência, fase original e curiosa
que me faria rir quinze dias antes. Com efeito, quem poderia
julgar possível uma amizade fraternal e pura entre duas
criaturas que meses antes trocavam as mais ardentes expansões
da sensualidade?" (p.103). Para no final devotar-lhe
sincero amor a ponto de vibrar com um possível filho de ambos:
" -Um filho! Mas é um novo laço e mais forte que nos
prende um ao outro. Serás mãe, minha querida Maria?"
(p.125).
É um ingênuo personagem
romântico. Apesar de se declarar pobre e até se vexar por
isso, vive byronicamente, de sonhos, de amor.
Os demais personagens são
secundários face aos dois protagonistas.
c) Dr. SÁ e CUNHA
- Amigos de Paulo, sendo aquele desde a infância. Encarnam
a moral burguesa e suas máscaras: austera com os outros,
benigna consigo. Não possuem personalidade bem delineada no
livro. Ambos vêem em Lúcia apenas a prostituta.
d) COUTO e ROCHINHA
- O primeiro é um velho dado a jovem galante. Encarna a
obsessão sexual e a velhice. Representa a sociedade que explora
e corrompe. Foi quem aproveitou a necessidade e inocência de Lúcia.
O segundo é um jovem de 17 anos, tez amarrotada, profundas
olheiras, velho prematuro. Libertino precoce. Eles aparecem
assim no romance: "O contraste do vício que apresentavam
aqueles dois indivíduos: o velho galanteador, fazendo-se criança
com receio de que o supusessem caduco; e o moço devasso, esforçando-se
por parecer decrépito, para que não o tratassem de menino;
essa antítese vivia devia oferece ao espectador cenas
grotescas." (p.33).
e) LAURA e NINA -
São meretrizes, como Lúcia, mas sem sua duplicidade de caráter.
Não são capazes de "descer tão baixo" porém, não
possuem a "nobreza e altivez" da protagonista.
f) JESUÍNA e
JACINTO - Aquela, é mulher de 50 anos, seca e já
encarquilhada. Foi quem recolheu Lúcia quando seu pai a
expulsou de casa e a iniciou na prostituição. Este, é um
homem de 45 anos, e "vive da prostituição das mulheres
pobres e da devassidão dos homens ricos". (p.111). Por seu
intermédio Lúcia vendia as jóias ricas que ganhava e enviava
o dinheiro à família pobre. É quem mantém a ligação
misteriosa no livro, entre Lúcia e Ana. Enfim, é quem cuida
dos negócios dela.
g) ANA - É a
irmã de Lúcia, que a fez educar num colégio até os doze anos
como se fosse sua filha. "Era o retrato de Lúcia, com a única
diferença de ter uns longos e de louro cinzento nos cabelos
anelados. Ana já conhecia a irmã e a amava ignorando os laços
de sangue que existiam entre ambas." (p.114). Lúcia tenta
casá-la com Paulo para ser uma espécie de perpetuação e
concretização de seu amor por ele: "Ana te darias os
castos prazeres que não posso dar-te; e recebendo-os dela,
ainda os receberias de mim. Que podia eu mais desejar neste
mundo? " (p.124).
PROBLEMÁTICA APRESENTADA
Vicente Ataíde, em
interessante estudo que fez de LUCÍOLA no Suplemento Literário
de 28/2/1976 do "Minas Gerais", apresenta o eixo da
estrutura narrativa do romance da seguinte maneira:
Paulo quer Lúcia, mas
ele possui impedimento de aproximação; Lúcia quer Paulo, mas
também possui impedimentos. É fácil, agora, entender como se
arma o conflito do romance:
PAULO X LÚCIA
Há motivos de
aproximação e de afastamento entre ambos. E do jogo aproximação-afastamento.
Chegamos a uma composição final. A composição é desejada
por ambos, mas é preciso que antes muitas arestas sejam
aparadas. Não é graciosamente que o ser humano se completa a
se acha, mas através de muita luta e muito erro (penitência
para superação dos defeitos.).”
Esta colocação do foco
narrativo do romance vem confirmar idéias anteriores, onde se
mostrou que a história de Paulo e Lúcia está vazada de situações
desarmônicas. Tais situações podem ser melhor entendidas
quando sintetizadas em algumas oposições que parecem
predominar na obra como idéias centrais. Tais como:
1- O DESNÍVEL DA
SITUAÇÃO SOCIAL - Retratando o Rio de Janeiro do segundo
Império, "Alencar revela os padrões de conduta e valores
de uma sociedade em transformação, movida sobretudo pelo
dinheiro." É a famosa moral burguesa,. Para a professora
Neusa Pinsard, da Universidade de São Paulo, "em Senhora e
LUCÍOLA os conflitos das personagens e entre personagens são
determinados pelo confronto do indivíduo com essa
sociedade".
Ora, Cavalcanti Proença
afirma que José de Alencar, revolucionário em sua linguagem,
insubmisso aos modelos literários da metrópole, respeitou
reverentemente e fez seus heróis respeitarem as convenções
sociais. E de acordo com tais convenções, há um desnível
enorme entre a situação social de Paulo e Lúcia. Esta é
prostituta e como tal é vista e rejeitada por todos, inclusive
por Paulo, no início. Trata-se de um impedimento sério na
aproximação de ambos. Tão sério que acaba por impedir a
concretização social (casamento, geração de filhos) do amor
do casal. Lúcia errou e deve pagar por isso perante a
sociedade. As convenções da moralidade burguesa e da Escola
Romântica assim o exigem. O casamento como "happy
end" do romance romântico não se realiza. Lúcia deve
morrer. "Pela própria ética do escritor, que não faz
concessões à queda irrecuperável absolutamente. Se um modo
houvesse de salvar Lúcia, ela seria salva. Mas esse modo não
existe", diz Vicente Ataíde. E a professora Neusa o
confirma: "Lúcia morre por causa do filho de Paulo, fruto
do amor carnal, proibido e condenado pela sociedade e por ela
mesma". (Cf. "Apresentação" da edição usada
nesta análise).
Uma das problemáticas
centrais levantadas no livro, parece, portanto, esta: a
imposição das convenções sociais, criando obstáculos ao par
amoroso, sacrificando-lhe a realização de um amor que não se
adequava aos seus padrões rigorosos, se bem que por vezes
hipocritamente condescendentes.
2- O CONFLITO DO
BEM E DO MAL - Das muitas oposições enfocadas no livro,
esta é a mais importante, agindo como base do enredo e do foco
narrativo. Trata-se de um tendência própria do Romantismo que
se traduz na "desarmonia" de situações e
sentimentos.
Há uma dualidade no caráter
de Lúcia: de um lado a mulher, meretriz, depravada, desprezada
pela sociedade, encarnacão do MAL; de outro, a menina inocente
que ainda teima em substituir nela por mais terríveis que
tenham sido os imperativos do vício naquela alma. É a permanência
do BEM. "Havia no meu coração certos germes de virtude
que eu não podia arrancar, e que ainda nos excessos do vício não
me deixavam cometer uma ação vil." (p.112). E durante
todo o tempo, pretende o autor convencer o leitor da
"criatura angélica" que habita o corpo da pecadora,
da "mulher que no abismo da perdição conserva a pureza
d'alma". E é essa Lúcia de "coração virgem",
purificada, que renasce nos últimos capítulos graças ao amor
de Paulo. Ë o triunfo do BEM sobre o MAL, coerente com os cânones
da ESCOLA ROMÂNTICA.
3- A VITÓRIA DO
AMOR - E chega-se, afinal, à temática básica de LUCÍOLA.
A intriga é calcada em assunto romântico: A situação social
da mulher em face do amor. Do "amor" como o concebe o
Romantismo: sublimado, capaz de renúncias, de sacrifícios, de
heroísmos, que está acima dos fatores sócio-econômicos, que
triunfa apesar das convenções sociais.
Em LUCÍOLA, o triunfo do
amor não foi na linha do "happy end". Lúcia
"passará por um processo de transformação, ou
renascimento, que fará desabrochar a adolescente pura e ingênua
que fora um dia, ao mesmo tempo que irá eliminando a cortesã
impudica". E, conclui a professora Neusa Pinsard, "a
protagonista alcança, portanto, a purificação através do
amor espiritual, que não pode ser contaminado e profanado pela
mais leve sombra de desejo físico".
É a vitória do amor,
numa outra perspectiva. É a temática central do romance: O
AMOR COMO FORÇA REGENERADORA.
O romance, na sua intriga
e temática, bem como no posicionamento das personagens, pode
ser visualizado graficamente assim:
Na busca mútua de Lúcia
e Paulo, há personagens que se posicionam como obstáculos, no
sentido de impedir o surgimento do amor dos dois: Couto, Sá,
Cunha, Rochinha. Outros são basicamente neutros: Jesuína,
Jacinto, Laura e Nina. E há uma, Ana, que se coloca no sentido
de aproximar o par romântico, a tal ponto de, conforme o desejo
de Lúcia, ser um símbolo de perpetuação, na terra, do amor
do casal. |